Uma cena do programa Silvio Santos me chamou atenção e a lembro todos os dias pela situação intrigante, interessante e ilustrativa. No supermercado, se instalou uma máquina de fazer linguiça com acionamento manual por manivela: um funcionário rodava e saía o produto “linguiça” pronta para ser levada. Um cartaz convocava os consumidores pelo preço muito atraente e pelo fato de ser natural e feito na hora! Ao solicitar-se o produto, o funcionário pegava um porquinho super limpo numa caixa ao lado e o colocava dentro da máquina: ao acionar a manivela, saía a linguiça pronta! Uma armação do programa.
Era incrível, nenhum consumidor terminava a compra e saía horrorizado pelo fato da linguiça de porco ter sido feita a partir do animal colocado na máquina! Foram quase dez consumidores... Mas como comprar uma linguiça de porco sem imaginar que um animal foi morto para se fazer o produto? Alguns diziam: não precisa matar o porco para isto gente! Mas como? Uma senhora chegou a vedar os olhos de sua filha com as mãos.
O filé mignon no prato é um pedaço de corpo bovino. O hambúrguer tem pedacinhos triturados de animais prensados! Ao comer a coxinha de frango, está se mordendo a perna daquele que circulava na granja ou no quintal. O peixe saboroso representa o pedaço de um lindo animal que nadava nas águas de rios e mares!
As pessoas se indignam com os japoneses por comerem baleia, mas a vida é a mesma no boi, porco, jacaré e tatu! Se a luta for para evitar a extinção da espécie tudo bem, mas comer a baleia faria parte da natureza humana como falam por aí! Mas se o homem sobrevive apenas com vegetais, não seria mesmo necessário matar e comer os animais!
Houve uma coincidência e ninguém vai acreditar, mas foi: no mesmo dia que escrevi sobre Afinal, quem são os ‘animais’?, na mesma página Luís Vitorelli cravou uma frase de Leonardo da Vinci, um dos mais inteligentes que passou pelo planeta: “Haverá um tempo em que os seres humanos se contentarão com uma alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente da mesma forma como hoje se julga o assassino de um homem”.
Etiqueta e culinária refinadas não recomendam e até usam o termo brega para os pratos preparados na mesa com animais inteiros. Porcos com maçã na boca, peixes com os olhos estatelados olhando-nos, frangos sem cabeça com as pernas viradas para cima como a última posição antes da morte. Pratos de joelho inteiro exibido de forma temperada e crocante! Peixe fatiado e cru para ser ingerido cozido quimicamente pelo molho na culinária oriental. O molho pardo é feito com sangue da galinha. O chouriço ou morcela, de sangue animal e muitos adoram! Sem falar da geleia de mocotó, de cartilagem e tendões de patas bovinas, um tanto saborosa. Partes de animal a ser ingeridas.
Um carnívoro radical argumenta: o leite representa um produto animal, como o ovo, seda, cerveja e pão. Há uma diferença entre usufruir de produto animal que continua vivo com o tirar a vida para fazê-lo! Nestes casos, os animais deveriam ser bem tratados e preservados como se faz com trabalhadores humanos; devemos também fazer com os trabalhadores animais. Por que não?
Couro e dentes de animais, barbatanas de baleias, ossos, garras e unhas em bijuterias e muitos outros poderiam ser utilizados e processados do mesmo jeito, mas com animais mortos natural ou acidentalmente. Matam elefantes pelo marfim de seus dentes e tigres inteiros por um pedaço supostamente afrodisíaco. Em qualquer lampejo de lucidez se percebe o tamanho da estupidez destas condutas! Hoje tudo que se quer, obtém-se em laboratórios com as mesmas ou melhores propriedades do que as encontradas em animais: até pérolas! Por razões econômicas é mais fácil, barato e imediato usar e matar animais do que montar uma linha de produção de testes. Muitas vezes, por ignorância e estupidez!
A ciência pura depende muito pouco dos animais para evoluir. Quem usa os animais é a área tecnológica e a ciência aplicada, especialmente para medicamentos e produtos e poderiam testá-los em laboratórios com células, tecidos e modelos computacionais muito mais precisos!
O leitor deve ter concluído: ele é vegetariano! Não sou e por questões culturais, não aprendi a ser, mas meu consumo animal é pequeno e limitado ao necessário; quando posso reduzo, mas confesso que gostaria de ser vegetariano por me parecer mais limpo e coerente com a valorização do conceito de vida!
Se desnecessário, o que é mais cruel: matar para pesquisar ou para comer?