Se a ordem dos fatores não altera o produto, chegamos à conclusão que ambas têm pelo de gato, rabo de gato, mia como gato, mas o governo insiste em dizer que não é um gato. (Darcy Bueno)
Poucas décadas de história
Era bom ser criança! Eu subi em árvore, brinquei com terra, comi terra e tomei chuva. Não, só tive pneumonia aos 21 anos. Era maneiro! Eu me amarrava! Se os adultos conversavam, eu me ocupava com as bonecas. Eu não participava. Eu me vestia como criança. Coerente! Usei roupas que foram de outras crianças da família, ou de filhos de vizinhos, ou de netos de sei-lá-quem. Era comum repassar.
Tinha como um exemplo as minhas professoras, as inspetoras, as diretoras, e quem mais pudesse ter feito parte da minha vida escolar. Fiz amigos e fui amiga. Fui criança, mas cresci. Fiz parte de uma tribo. Acreditei em tudo, em nada e em muitas coisas que esqueci. Quis me maquiar por vaidade, cursar Moda, Administração, Direito e Publicidade. Eu pude sonhar! Amei sopa, detestei sopa, beterraba, berinjela, espinafre. Eu mudei! Mudei novamente, mudei de novo, mais uma mudança.
Desfiz e refiz amizades. Quis perto, quis longe. Senti-me distante, importante, boa o bastante, adolescente inconstante, criança. Senti-me criança demais. De perto vi minha geração acomodada, que comia vendo TV, que não questionava nada, que deixava a vida acontecer. Mas foi só o tempo passar para a juventude acordar e ir para o meio da rua. Mensalão, corrupção, 20 centavos, falcatrua. Tá bonito de ver! Tanta coisa engasgada, tanta coisa para querer. É para mexer na ferida, é pra fazer doer.
Se estou sonhando, só saberei se o despertador me avisar. Mas não esqueça, juventude, de resgatar nossa Ordem e Progresso, pois comer bobagem em excesso te fez querer despertar.
Naraiane Leni Pereira