Articulistas

A perversidade da lei da oferta e da procura

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

O feriadão e o calor levaram multidões às praias, provocando congestionamentos nas estradas, nas areias e na procura por alojamentos e alimentação. Essa situação será repetida nas festas de fim de ano e nas férias. A Copa do Mundo aumentará a procura por transporte e hospedagem além do normal. Nessas situações os preços se tornam abusivos. Os fornecedores dos serviços consideram isso normal e os consumidores reclamam, mas acabam aceitando, porque ambos acham que assim estabelece a lei da oferta e da procura que, no folclore político, nenhum prefeito ou vereador conseguiu revogar.

Ruy Castro, escritor, biógrafo e cronista da Folha, comenta que na Copa de 2014, uma vaga em beliche, no Rio, poderá custar, por noite, R$ 1.000,00, com café da manhã à parte, no botequim da esquina. Diz que com esse valor, equivalente a 300 euros, o turista brasileiro se hospedaria em hotéis de luxo em Berlim, Roma ou Cannes, com lençóis de algodão egípcio de 400 fios e 20 variedade de queijos e geleias no café da manhã. Os altos valores dos hotéis e restaurantes estariam acessíveis somente aos executivos da Fifa e torcedores milionários de países como Irã, Coreia do Sul e Nova Zelândia. Torcedores de Honduras, Etiópia e Burkina Fasso teriam que dormir na praia, tomar banho nos postos de salvamento e comer no ?pé-sujo?.

O noticiário de TV, durante o feriadão, focalizou banhistas em diversas praias, sem constrangimento da situação de farofeiros, providos de alimentos e bebidas que se fossem adquirir na praia pagariam preços até quatro vezes maiores. Mas mesmo assim não escapam de uma água de coco, um espetinho de camarão e alguma outra coisa reclamada pelas crianças. Perguntados sobre o que estavam achando dos preços diziam que eram um absurdo. Já o vendedor dizia: - é preço de verão, quando tem muita gente o preço sobe.

A lei da oferta e da procura é racional, isto é, tem lógica, segue o raciocínio ? se tenho bastante para ofertar, mais do que estejam procurando, eu me esforço mais para oferecer, dando alguma vantagem, como diminuição do preço, para que mais consumidor se interesse; se tenho pouco para oferecer e muitos desejando, eles estarão dispostos a pagar mais e eu posso aumentar o preço para ter mais vantagem. Ela se fundamenta na racionalidade tanto do comprador como do vendedor e varia conforme a abundância e a escassez. Se há abundância a oferta é maior e o comprador fica com poder de escolha de qualidade, de preço e de condições da venda; no período de escassez o poder de escolha diminui e o vendedor aumenta o preço para ganhar mais. É lógico, não é? Mas nem por isso deixa de ter algumas incongruências e perversidade. É o caso da produção em escala com custos decrescentes, em que quanto mais se produz menor será o custo da unidade produzida. Neste caso é comum aumentar a oferta e o preço diminuir ou ficar estável. Está dentro da lei, mas quando as circunstâncias aumentam a procura dentro da capacidade de oferta, em que seria possível aumentar o faturamento mantendo o preço ou com a vantagem de um pequeno acréscimo, a lei da oferta e da procura funciona implacável e os preços se tornam abusivos.

Em regimes totalitários, como está acontecendo na Venezuela, o governo decreta guerra ao que chama de burgueses especuladores e gananciosos. Esperemos para ver no que vai dar. Aqui ainda resta a lembrança dos ?fiscais do Sarney?. A lei da oferta e da procura não é instituição de governo, é lei de mercado. Quem a regula é o mercado, mas é preciso que o governo use instrumentos regulatórios para proteger a população dos abusos, que são como as bruxas, que mesmo que não se acredite, existem.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

Comentários

Comentários