A frase do título, de autoria do cancioneiro regionalista de obras-primas da cultura popular originária brasileira, o compositor e cantor Renato Teixeira, é aqui emprestada para expressar o sentimento de defesa do léxico caipira. Na literatura sobre o caipirismo, diversos pesquisadores tratam, corretamente, de posicionar a relevância do homem do campo na formação dos principais elementos da brasilidade. Mas isso é tão raro como saber que a "cuíca cata casca, café cai chão" na nossa Mata Atlântica.
Não se trata de bairrismo com chapéu e fumo de palha, mas de contrariar, com humor, a figura folclórica do homem da roça descrito por Monteiro Lobato na literatura. O sujeito carrancudo, coió (tonto como se diz nos vilarejos que ainda mantêm tradições de dialeto), que cospe no chão e ?cata catota? do nariz, é apenas o estereótipo fragmentado que não se sobrepõe ao brasileiro responsável pelo elo entre a formação de nossas tradições genuínas a partir do cafuzo e a ruptura da vida rural a partir do êxodo no País.
Felizmente, a figura do Jeca eternizada na canção do itaporanguense Angelino de Oliveira, - que em sua trajetória também foi diretor da rádio F8 de Botucatu (SP), e massificada na rota do cinema na personificação do "xucro" Amácio Mazzaropi, passa a ser objeto de estudo para sangrar a anca de nossos ancestrais.
Um desses exemplos de recolocação necessária, cultural e histórica, do caipira em seu verdadeiro papel de sustentáculo de nosso sincretismo de conteúdo está na obra do pesquisador Romildo Sant´Anna "A moda é viola". A abordagem não trata apenas da oralidade presente no universo dos modeiros de viola, mas também do apontamento do fundamental papel dos carreiros para a quebra do isolamento entre a tradição da cantoria rural e a formação dos primeiros agrupamentos no Brasil ainda instrumentalizado pela colonização.
Os jesuítas Manuel da Nóbrega e Padre Vieira tiveram na música uma espécie de ferramenta bruta para a evangelização. Isso no tempo em que mulheres não participavam nem das cantorias religiosas. E daí advém o princípio das duplas caipiras com vozes combinadas. É do ambiente das paróquias que se têm, aponta Romildo, a origens dos primeiros duetos.
E, num misto de sobrevivência pela necessidade de procriação, além da esfera consanguínea dos rincões isolados da época e de busca de mercado para a boiada, lá vieram os carreiros como os disseminadores dos cancioneiros ao longo das vilas. O resgate empírico dessa conexão, por sinal, também é tocado no livro "Caipira sim, trouxa não: representações da cultura popular no cinema de Mazzaropi, de Soleni Biscouto Fressato, entre outras obras.
É desse balaio cultural de riquezas brasileiríssimas, deixadas ao largo no meio acadêmico ou sufocadas pela aculturação monossilábica de massa que dói em nossos ouvidos no "sertanejo" urbano que provoco, positivamente, a defesa da essência sociológica e de formação de nosso léxico genuíno a partir do homem do campo.
Na produção do CD Linguagens, que acabo de lançar de forma independente, a música "Contracultura" propõe um embate bem humorado contra a "difamação" às avessas que a obra de Monteiro Lobato acabou fazendo com o caipira. Mais por nossa culpa do que pela intenção do autor, registre-se. A carta crônica caipira que elaborei como subproduto do CD Linguagens é um convite ao reconhecimento do homem rural não como "coió, caduco, xucro, carrancudo, que cala, cospe e coça", mas que, no bom sentido, "conspira contra a cultura", por tudo que a "ciranda, cantoria, congada, cateretês, curimbós, catiras e catiripapos culturais" nos ensejam. O simples resolve tudo!
O autor, Nélson Itaberá Gonçalves, jornalista e compositor, lança seu primeiro DVD no dia 11/12 no Sampa, em Bauru