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Motoristas transitam às cegas

Pablo Marques
| Tempo de leitura: 6 min

Bauru tem aproximadamente 245 mil veículos registrados até agosto desse ano, segundo o Detran. Esse cálculo inclui todos os tipos de veículos como motos, carros, caminhões, reboques, entre outros. Em relação à população, a cidade tem em média um veículo para cada 1,5 habitante. Apesar de ser uma cidade de médio porte, com uma população de 348 mil pessoas, Bauru possui problemas de trânsito comparados aos de cidades grandes.


No entanto, não é somente a quantidade de veículos que potencializa esses problemas. A falta ou a má conservação das vias e sinalizações prejudica ainda mais a circulação pelas ruas da cidade. Não é difícil encontrar cruzamentos com placas confusas ou mal posicionadas ou encontrar o asfalto deteriorado, principalmente nas ruas mais distantes do centro e das principais avenidas da cidade. Em muitas ruas o asfalto está esburacado, quebrado ou remendado. Segundo a Emdurb, esse é o motivo pelo qual não é possível refazer as sinalizações horizontais. Ou seja, as marcações com tinta feitas no solo para indicar quantas faixas a rua possui, se a via é de mão única ou dupla e a delimitação de vaga para estacionar.


Aníbal Ramalho, gerente de planejamento de tráfego da Emdurb, justifica essa falta de sinalização “Não adianta a Emdurb pintar as faixas em ruas que soltam pedriscos, por exemplo. O trabalho de conservação precisa ser continuo. Existem ruas em Bauru que foram pavimentadas há mais de 20 anos. Também não adianta tapar buraco que a chuva vem e os buracos voltam. Isso é uma carência da Secretaria de Obras da Prefeitura”. Anibal garante que Bauru é uma das cidades mais bem sinalizadas do interior paulista e que a maioria dos acidentes ocorrem pela falta de respeito às leis de trânsito.



Educação no trânsito


O período entre 2011 e 2020 foi escolhido pela ONU, Organização das Nações Unidas , como a “Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito”. A iniciativa tem como intuito diminuir o número de acidentes graves no trânsito.


Em Bauru, a educação no trânsito faz parte do Plano Municipal de Educação, que determina quais serão as diretrizes da educação para os próximos 10 anos. Por consequência disso, as escolas municipais realizam o programa “Se essa rua fosse minha”, vinculado ao Detran e destinado só para as crianças do quinto ano, mas a intenção é que no ano que vem o projeto se estenda a todas escolas da rede municipal.  


No entanto, esse conteúdo não será tratado como uma nova matéria escolar. Segundo Anauá Moreira, encarregada da educação para o trânsito no município “Não é possível ter uma matéria sobre trânsito na grade curricular por uma determinação do Ministério da Educação. Esse assunto precisa ser tratado de maneira transversal, de maneira interdisciplinar com outras matérias da grade”.


Além disso, o Código Brasileiro de Trânsito também prevê políticas de educação e conscientização. Uma delas é a “Semana Nacional do Trânsito” que ocorre sempre no mês de setembro e é organizada pelos Órgãos do Sistema Nacional de Trânsito. Este ano o evento na cidade de Bauru teve como tema “Respeitar o trânsito é amar a vida, curta essa ideia” e foi organizado pela Emdurb, com apoio da Secretaria de Educação do município e do estado. Anauá afirma que a educação no trânsito não está restrita a essa semana e que a Emdurb também realiza peças de teatro, exposições e palestras para ensinar as leis de trânsito dentro e fora das escolas ao longo do ano.


Outra forma de conhecer e aprender essas leis é em um centro de formação de condutores (CFC). Daniele Cristine Camargo, proprietária de CFC e instrutora teórica, dá a sua visão como educadora do trânsito. “A autoescola não é suficiente para educar os motoristas. A maioria dos alunos chega aqui com 18 anos e nunca teve educação no trânsito. É difícil educar os alunos em apenas 15 dias de aulas teóricas. Não adianta ensinar trânsito só quando a pessoa vai aprender a dirigir, a educação precisa ser diária”.

 

Problemas no trânsito

 

Até julho deste ano, Bauru teve uma média de 18 acidentes por dia. No total foram 3.810, dos quais 931 tiveram feridos e 15 tiveram vítimas fatais. Anauá Moreira, da Emdurb, afirma que a maioria desses acidentes são causados por falta de respeito às leis de trânsito.


Por outro lado, há muitos motoristas que se confundem ao dirigir nas ruas de Bauru. Magali Tavares, motorista há mais de 40 anos, aponta alguns problemas que encontra nas vias da cidade. “O asfalto é muito ruim. Tem muito buraco e falta sinalização e iluminação. Eu só não me atrapalho porque conheço a cidade, mas um motorista que não está acostumado se confunde. Às vezes a gente precisa ser mágico”.


 A rua Luiz Bassoto, por exemplo, não possui indicação de sentido nem horizontal, nem vertical e os próprios moradores dali não sabem informar se ela é mão única ou dupla. Já a rua Henrique Savi possui sinalizações contraditórias e confusas. Ao cruzar com a rua Caetano Sampierri, o motorista que tem a preferência encontra sinalização de solo com indicação de “pare”. A rua teve recentemente três preferenciais invertidas, mas a sinalização, apesar de pintada de preto, ainda atrapalha os motoristas desavisados.


Segundo Anibal Ramalho, engenheiro de tráfego da cidade “Isso não caracteriza um problema, porque o que prevalece é a placa, de acordo com o artigo 29 do Código Brasileiro de Trânsito. Esse resquício de sinalização horizontal ocorre porque a tinta preta usada para cobrir as marcas sai com tempo”.


Além da falta de manutenção, o vandalismo também é um motivo para a má sinalização nas ruas, mas conforme o artigo 88 do Código Brasileiro de Trânsito, isso não isenta o município ou a Emdurb das responsabilidades com o trânsito. “Nenhuma via pavimentada poderá ser entregue após sua construção, ou reaberta ao trânsito após a realização de obras ou de manutenção, enquanto não estiver devidamente sinalizada, vertical e horizontalmente, de forma a garantir as condições adequadas de segurança na circulação”. Ou seja, para a via receber a circulação de veículos todas as sinalizações precisam estar em bom estado e exercendo alguma função.


Outro problema de sinalização está relacionado às lombadas. É difícil ver uma que siga a resolução 39 do Conselho Nacional de Trânsito, Contran. Essa deliberação determina que as lombadas urbanas, devem ter exatamente o tamanho da via, comprimento de 1,5m e altura de até 0,08m. Além disso, devem ser sinalizadas com a placa de identificação e pintadas com faixas amarelas para destacar da cor do asfalto. Três exemplos disso estão na rotatória da rua Abrahão Rahal, onde foram implantadas lombadas sem o tamanho e o formato ideais.


A responsabilidade do trânsito é dividida entre a prefeitura, os motoristas e a Emdurb. De fato, as estatísticas e os setores responsáveis apontam que a causa do problema é o motorista. No entanto, o desrespeito às leis não pode servir de justificativa para manter o trânsito como está.

 

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