Realizada anualmente durante o período litúrgico da Quaresma, a Campanha da Fraternidade de 2014 (CF) trará o tema “Fraternidade e tráfico humano” e já foi apresentada para as lideranças paroquiais da Diocese de Bauru. Na abordagem da Igreja Católica, o assunto - que foi explorado pela novela “Salve Jorge” - terá como lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.
Aceituno Jr. |
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Coordenador diocesano da campanha, Gerson acredita que o tema receberá mais atenção da sociedade |
A exploração do trabalho, a exploração sexual, extração de órgãos e a adoção ilegal de crianças são formas de tráfico humano. Convidado pela equipe diocesana da CF, o delegado Márcio José Alves, em evento que discutiu o tema, realizada na Universidade do Sagrado Coração, revelou que, na região de Bauru, há muitos registros do primeiro tipo do crime.
Ele mostrou notícias sobre exploração do trabalho na cidade e em municípios vizinhos. “Precisamos fazer com que a informação chegue às vítimas e a comunidade veja que o problema está ao lado. Devido à abrangência da Igreja, discutir o tema levará a mais ações preventivas, denúncias e punição para os aliciadores”, disse Márcio.
Segundo o delegado, trata-se de um crime organizado, que se aproveita da vulnerabilidade social das vítimas para convencê-las com promessas enganosas a migrar e trabalhar em plantações, na construção civil ou em outras atividades, sem condições dignas.
Desde que chegam, esses trabalhadores se veem endividados com os aliciadores por conta do transporte, moradia e alimentação; têm seus documentos retidos e são obrigados a cumprir jornadas muito exaustivas, sem segurança e remuneração compatível.
O delegado observa que, sem condição de voltar para seu local de origem, as pessoas que trabalharam praticamente como escravos incham a cidade, dependendo do assistencialismo e sobrecarregando os serviços públicos, como de saúde, por exemplo.
“Migrar é um direito, já o tráfico humano é crime. É preciso dar estrutura para que as pessoas fiquem e reinseri-las no mercado de trabalho, pois do contrário, vão arrumar formas para se manter, nem sempre lícitas”, avalia Márcio José Alves.
Gestos concretos
Coordenador diocesano da CF, Gerson Luiz Alves Pinheiro explica que, todos os anos, a Igreja traz um tema forte para que a comunidade possa tomar conhecimento de problemas. “São assuntos que não são discutidos no dia a dia, mas merecem a nossa atenção. A abordagem faz com que os católicos e a sociedade debatam e procurem ações para que gestos concretos sejam alcançados”.
Ele lembra que os temas são discutidos em abrangência nacional e já resultaram em conquistas significativas, como o Estatuto do Idoso, vigente desde 2003. “Sobre o tema deste ano, na nossa região enfrentamos a exploração do trabalho. Já em São José dos Campos, há casos preocupantes sobre tráfico de órgãos, bem como a exploração sexual em várias outras regiões do País”, alerta.
Coleta solidária
Gerson explica que, ainda na perspectiva de buscar gestos concretos, todos os recursos recolhidos nas coletas das paróquias e capelas de Bauru no Domingo de Ramos, último da Quaresma, serão destinados às ações sociais da Igreja Católica.
Metade do dinheiro será aplicada em prol de projetos do Fundo Diocesano de Solidariedade. “A outra parte é dividida para a região e para o Fundo Nacional de Solidariedade”, explica o coordenador da CF.
‘Ver, julgar, agir’
Na apresentação da Campanha da Fraternidade de 2014, realizada no dia 24 de novembro, o tráfico humano foi abordado por três palestrantes, que utilizaram como metodologia os princípios “Ver, julgar, agir”. No primeiro, o delegado Márcio José Alves apresentou o diagnóstico da exploração do trabalho em Bauru e nas cidades da região.
“A Igreja precisa alertar as vítimas antes do consentimento delas, informar sobre os riscos do tráfico humano e auxiliá-las através das pastorais sociais e homilias, para que não se iludam e tenham suas necessidades atendidas no local onde já vivem”, apontou.
No “julgar”, o tema recebeu abordagem espiritual. Eduardo Cardoso, paroquiano da Igreja Santa Rita e advogado da Diocese de Bauru, lembrou que o papa Francisco tem chamado a atenção para a postura de indiferença. “Como seguidores de Jesus, devemos ouvir a voz do próximo, porque todos somos um e a dor que aflige a um afeta a todos. O problema é que estamos apáticos, sem compaixão com quem precisa. Temos que fazer mais por uma sociedade melhor. No Brasil se diz que política não se discute. E isso é muito bom para quem governa em benefício próprio”, avaliou.
Já Klaúdio Coffani, ao palestrar sobre o “agir”, reforçou que a campanha tem como missão a conversão pessoal, comunitária e social. “Não existe cristianismo individual; é algo comunitário. Preciso do próximo para vivenciar o amor. Por isso não dá para ser cristão sem atuação nas questões políticas e sociais. A fé sem obras é vã. E, na temática da CF, devemos agir nas questões sociais que levam ao tráfico humano.”
Entre as muitas pistas de ação presentes no texto-base da CF está o fortalecimento do combate à vulnerabilidade social, que inclui a pobreza, a falta de educação de qualidade, a ignorância, a substituição de bons valores e vivência religiosa pelo consumismo e individualismo.
