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Carro, combustível e mobilidade

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Acidentes nas estradas matam mais brasileiros que o câncer e ferem milhões de pessoas por ano. Acrescentando a isso a poluição, os custos sociais ocultos dos nossos automóveis chegam a muitos bilhões de reais por ano. Para reduzir esse resultado trágico, os fabricantes terão que mudar certas percepções de valor, vendendo leveza e segurança em vez de porte e potência. É preciso substituir a crença, profundamente arraigada, de que só peso produz segurança e durabilidade.

Automóveis mais pesados têm mais inércia, precisam de mais força para acelerar e apresentam maior resistência à rolagem, pois, há mais peso sobre os pneus. Como resultado, a energia necessária para mover o auto, chamada de carga de tração, aumenta na proporção de seu peso.

Nos momentos em que o carro, com motor alimentado a álcool ou gasolina, está parado em um congestionamento, aproximadamente 85% da energia do combustível são perdidos pelo próprio sistema de propulsão ? na água de arrefecimento e através dos gases de escape ? e para acionar acessórios como ar condicionado e faróis. Na medida em que o veículo acelera, mais da metade do restante da energia do combustível é usada para vencer a resistência do ar, ou seja, é usada para lançar o ar para os lados e esquentar os pneus e o asfalto. Só os últimos 5% da energia do combustível faz o carro acelerar. Dependendo do tipo e do tamanho do veículo e do peso do motorista, apenas um vigésimo da massa sendo acelerada é do motorista, portanto, algo entre 0,3 e 0,5% da energia disponível no combustível, acelera o motorista.

A percepção desses valores tem uma consequência profunda: tornar um automóvel convencional bem mais leve e amenizar seu deslocamento pelo ar e sobre a estrada tem enorme alavancagem na economia de combustível.

Sem prejudicar a segurança, o aço irá enfrentar no futuro a leveza da fibra de carbono, mas já começa a ser desafiado pelo alumínio, que tem um terço da densidade e resistência comparável. Embora o quilo do alumínio seja algumas vezes mais caro que o mesmo quilo de aço; embora possa ser mais difícil para ser moldado e fundido, esse metal está sendo cada vez mais usado pela indústria automobilística. Ao longo das três últimas décadas, o conteúdo de alumínio em alguns veículos aumentou de forma significativa como parte desse esforço para reduzir o peso. Além dele, o plástico, o magnésio e até o titânio estão sendo cada vez mais utilizados.

Um automóvel mais leve precisa de menos força e por isso, seu conjunto motor-transmissão pode ser menor e mais simples. A economia de peso se multiplica em cada componente desde os freios até as peças da suspensão. A leveza se multiplica.

Ganhos adicionais de eficiência provêm da redução do coeficiente de arrasto, da área frontal e por meio de pneus modernos, com baixa resistência à rolagem. Passar de pneus menos eficientes para os mais eficientes, num tamanho comum, aumenta a economia de combustível de 8 a 12%, sem prejuízo do desempenho, da durabilidade ou da segurança. Estudos recentes demonstram que a resistência à rolagem é responsável por 9% do uso mundial de petróleo, valendo meio bilhão de dólares por dia.

O simples fato de manter os pneus com a pressão recomendada e de usar óleos sintéticos modernos no motor podem reduzir o consumo de gasolina de 1 a 3%. Com o veículo em movimento, a chave para aumentar a eficiência é pisar de leve no acelerador e nos freios, desviar de congestionamentos e faróis vermelhos quando possível, tirar tralhas pesadas do porta-malas, evitar arrancadas bruscas e dirigir mais devagar. Para quem deseja adquirir um carro, vale lembrar a ironia do climatologista alemão Hans Joachim Schellnhuber: "hoje, comprar um carro para ter mobilidade é como comprar um restaurante para poder fazer uma boa refeição".

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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