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Para quem tem mais de meio século!

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Dezembro! Mês de Natal! Cânticos natalinos ecoavam com o badalar alegre dos sinos da torre da pequena igreja! A praça não tinha luzes chinesas, mas lâmpadas coloridas que iluminavam o jardim onde crianças brincavam ao redor do chafariz enquanto os pais iam rezar ao entardecer. Pela porta da igreja saía fugaz o cheiro de incenso e aos pés de Nossa Senhora moças solteiras usavam véu branco e mulheres casadas véus negros de renda fina. Os homens tiravam o elegante chapéu ramenzone para adentrar à igreja em sinal de respeito, enquanto freiras cantavam a ladainha em latim!

O ar espargia o aroma de pães açucarados assando no fogão de lenha, peras caramelizadas brilhavam na compoteira de cristal e o manjar branco com calda de ameixas tremeluzia sobre linda travessa de porcelana! A ceia só acontecia após a missa do galo. Sobre a mesa, toalha de linho bordada à mão, crivada de sonhos, dava o toque de importância! Pratos e talhares marcavam lugares e copos transparentes faiscavam em elegância na grande e farta mesa de Natal! Bolo de ameixas, regado com Martini, leitoa pururuca alcatifada de saborosos torresmos, frango caipira recheado com farofa, vinho tinto para os adultos e delicioso refresco, conhecido como sangria, para as crianças, além das saborosas rabanadas carinhosamente envolvidas em canela e açúcar cristal!

Não existia supermercado, tampouco shopping, poucos moradores tinham carro e as ruas tranquilas ladeadas por murtas prateadas serviam para o caminhar dos moradores e boêmios em românticas serenatas. De quando em quando charretes e cavaleiros com seus fogosos animais marcavam presença num trotear ritmado. Todos podiam ir e vir sem medo, pois a violência ainda não habitava o coração dos homens, os pais não abandonavam os filhos, que eram desejados e amados, a infância tinha caminhas macias com lençóis branquinhos e pijaminhas de flanela que a vovó costurava com esmero. Não existiam creches, tampouco Casa Abrigo, e a pequena cidade era o presépio de Natal dos moradores. A diferença é que o governo apenas governava e não interferia na educação de berço e os pais sentiam-se honrados em não deixar o filho pertencer à Caixa Escolar para ganhar gratuitamente alimentos e material didático. Era costumeiro pedir a benção do papai e da mamãe antes de adormecer e fazer a oração do anjo da guarda! As crianças acreditavam em Deus e tinham colo, carinho e coração! Quem tem mais de meio século sabe do que estamos falando!

A autora, professora Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga. Autora de Quintal de Sonhos e a Saudade é Lilás!)


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