Depois passar seis meses correndo atrás de boas notícias na economia, o Banco Central dos Estados Unidos pôde finalmente anunciar na tarde desta última quarta-feira, a uma semana do Natal, o início do "desmonte" do pacote de afrouxamento monetário que injetava, todo mês, 85 bilhões de dólares na economia americana. A partir de janeiro, 10 bilhões de dólares serão retirados do pacote de estímulo, a cada 40 dias, até cessarem as compras dos títulos do Tesouro dos EUA e de títulos de hipotecas.
A decisão de mudar a política monetária foi pautada nas "boas notícias" indicando algum crescimento nos níveis da atividade e um "progresso cumulativo" nas condições de trabalho, já que uma das pré-condições era a queda da taxa de desemprego para um nível abaixo dos 7%, nos Estados Unidos. Outra das condições era que a taxa de inflação se mantivesse próxima de 2,5%, nas previsões anuais.
A expectativa de que os cortes nos estímulos monetários serão conduzidos com cautela e alguma flexibilidade foi confirmada por Ben Bernanke, presidente do FED, em entrevista após a reunião do comitê monetário. Os próximos passos não estarão presos a regras ou datas rígidas e mesmo os montantes serão mensurados em cada reunião, dependendo da evolução dos indicadores econômicos. O comunicado oficial do comitê reforçou a ideia da flexibilidade, ao dizer que nos próximos encontros os membros vão considerar medidas adicionais para avaliar as condições do mercado de trabalho, os indicadores da expectativa da inflação e da evolução financeira.
O que se pode dizer é que mudou para melhor a qualidade da comunicação pública do Banco Central americano, nesta despedida de Bernanke. No que diz respeito à nossa economia, precisamos pensar medidas que nos permitam enfrentar os efeitos das mudanças. Existe uma ameaça sobre a nossa política fiscal, produzida não pela situação presente, mas pela perspectiva de continuar tendo um aumento muito grande de despesas e pela possibilidade do superávit primário ser insuficiente para manter a relação Dívida/PIB. Não é o problema de hoje, mas a expectativa é que é ruim.
A boa perspectiva que vejo nesse momento é que o governo entendeu isso claramente: o ministro Guido Mantega reafirmou, ainda nas vésperas do anúncio do FED, que tem instruções da presidente Dilma Rousseff para manter o superávit primário em torno dos 2%, no ano que vem, sem nenhum truque. O governo está ciente da delicadeza da situação com a mudança da política monetária americana. Teremos seguramente um efeito sobre o câmbio e algum efeito mais leve sobre o movimento de capitais, mas nada que possa nos prejudicar fortemente. Foi esse, aliás, o tom da entrevista da presidente Dilma à Rádio Jornal do Comércio no Recife, antes mesmo do término da reunião do Federal Reserve americano, quando afirmou:
"Em dado momento vai ter de fato a mudança da política monetária expansionista dos Estados Unidos, mas nunca antes o Brasil esteve tão preparado para enfrentar as turbulências, porque tem reservas e tem sabido usá-las; nossa dívida líquida é de 35% em relação ao PIB, nossa inflação está sob controle ? chegamos ao décimo-primeiro ano consecutivo sem ultrapassar a meta - a taxa de desemprego é baixa (4.6% neste final de ano) e somos o quarto país que mais atrai investimentos estrangeiros diretos, atrás apenas da China, Estados Unidos e Hong Kong."
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC