Bairros

Mosaicos e tecidos 'afagam' Papai Noel

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Dom Júnior, o apelido de José Adolfo Rosica Júnior, 25 anos, da Vila Falcão, ingressou no artesanato após um grave acidente com veículo. Ele quebrou a bacia e os dois anos com quase nenhuma mobilidade na cama só foram superados sem o acometimento da depressão pelo “mergulho na técnica dos mosaicos”.

Para o jovem, foi um presente. “É como o espírito de Natal. Às vezes a oportunidade de superação vem do inesperado, e eu tive essa chance. Perdi um amigo no acidente e fiquei muito abalado. Uma tia, em São Paulo, então percebeu que a tristeza pelo acidente e a permanência na cama, imobilizado, tomavam conta de mim e me apresentou técnicas de mosaico. Mergulhei nisso e aos poucos o dom de artesão foi despertando em mim”, conta.

Em sua barraca, enquanto pendurava mandalas (vendidas a R$ 50,00) em arranjos para chamar atenção do público, Dom Júnior apontava para os filtros de sonhos (R$ 25,00): artigos decorativos. “A crença é que o pesadelo ou a tristeza de uma pessoa, a energia negativa, fica preso nas teias artesanais e isso libera energias positivas. É um lado místico que se mistura ao gosto por cores e arranjos que são bastante procurados como presentes no Natal e no Dia das Mães”, defende.

Recuperado do acidente, o artesão investiu em cursos e na diversificação. “Eu passei a produzir também números para identificação de casas (valor R$ 80,00), vasos e placas personalizadas (R$ 80,00). São presentes ou lembranças com boa procura nessa época do ano. A verdade é que as pessoas gostam de celebrar essa época do ano e o artesanato tem o ingrediente de ser único”, um componente de carinho agregado ao sentimento natalino.

Já Sumiê Awane Awaji Otani, do Jardim Terra Branca, retomou o aprendizado com costura após trabalhar por anos em agência bancária. Ela já trabalha há oito com artesanato. “Minha mãe me ensinou muita coisa. Hoje os filhos não aprendem mais bordado, tricô. Mexer com tecido, só na hora da compra na loja, na hora de experimentar”, provoca, com humor, a artesã.

Ela conta que começou a costura no Sesi de Ourinhos. Hoje trabalha na produção artesanal de peças em tecido, pedraria e bolsas. Um ‘porta pão’ sai por R$ 40,00, o porta guardanapo é vendido a R$ 10,00 e o cobre mesa, feito em tecido sintético, custa R$ 70,00. “No dia das mães e agora no período de Natal, eu vendo muito mais que qualquer época do ano”, ratifica.

Pela utilidade

Em sua opinião, a opção por presentear os gêneros que produz está associada à utilização. “São peças que têm um público cativo, pelo gosto, mas que também chamam muitos clientes por serem de utilidade nas casas. E tem ‘porta’ de tudo: joia, CD, papel higiênico, toalha, treco”, finaliza.

Do Octávio Rasi, Rita Botta, se dedica a produtos em madeira e sachês para banheiros. “Eu estou completando 10 anos de atividades com artesanato”, informa. Um kit sabonete sai por R$ 10,00. O processo de preparo é feito com o derretimento do produto base para sabonete, mas até o ponto de não chegar a ferver, quando a habilidade da artesã gera a montagem nas formas. O item também tem boa procura como lembrancinha de casamento.

Em casa, o artesanato gerou frutos. “Minha filha é artesã e professora de artesanato. Eu era empregada doméstica e aprendi a fazer o kit em um projeto social da Escola Walter Barreto, do Octávio Rasi. Fui me envolvendo tanto com artesanato que uma hora tive de escolher entre produzir os produtos e ser bancária, e já estou trabalhando com as mãos há 10 anos”, descreve.


Algumas tipologias

Areia colorida: Técnica de composição de imagens com areia colorida em recipientes transparentes. Em geral são usados sedimentos com pigmento natural ou artificial.

Borracharia: Esta tipologia abrange a produção artesanal que utiliza as borrachas naturais, que é o produto sólido obtido pela coagulação de determinados vegetais, sendo o principal a Hevea Brasiliensis.

A borracha é um produto natural procedente do látex, de acidez neutra, com grande elasticidade, inodoro e sem resíduo. Ela sofre uma série de preparos para adquirir os requisitos da elasticidade e, dureza, resistência.

Modelagem: Nesta tipologia enquadra-se a confecção de objetos a partir de técnicas de modelagem de ceras, massas, gesso e parafina. 

As ceras são matérias-primas maleáveis produzidas tanto por animais, como extraídas de vegetais.

A parafina é derivada do petróleo, matéria-prima essencial na fabricação de velas, por sua propriedade combustível Outras aplicações comuns à parafina incluem: cosméticos, giz de cera, tintas, pinturas, entre outros.

O gesso é uma substância produzida a partir do mineral gipsita, composto basicamente de sulfato de cálcio hidratado. Normalmente é encontrado na forma de pó branco que, misturado à água, endurece rapidamente, adquirindo forma definitiva de oito a doze minutos.

As massas são resultantes de misturas de materiais, caracterizadas pela sua consistência pastosa e maleável. Entre as mais usadas na produção artesanal estão: a massa de porcelana fria ou biscuit e as argamassas, que tem como componentes básicos cimento, areia e água.

Madeira

Nesta tipologia serão considerados os produtos confeccionados com madeira e seus derivados (MDF, aglomerados e compensados), compreendendo desde móveis e utilitários produzidos na marcenaria, objetos e adornos feitos com madeiras torneadas e outros decorrentes das diversas técnicas existentes para processamento da mesma, excetuando-se os papéis artesanais que constitui uma tipologia específica.

Pedras

Enquadra-se nesta tipologia todo objeto resultante de intervenções artesanais utilizando os mais diversos tipos de pedras existentes no Brasil.


Algumas técnicas

Amarradinho/Puxadinho

Consiste em preencher as tramas da talagarça (ou tear) com retalhos, sempre no mesmo sentido. Os retalhos são inseridos na trama e presos com um nó simples, mas firme. Preenche uma trama, pula a seguinte e preenche a outra, seguindo até o fim da carreira. Na carreira seguinte, intercala o amarradinho com a trama da carreira anterior. O avesso é liso, já a frente do trabalho é cheia e fofa.

Armaria decorativa

A técnica de produzir peças decorativas como garruchas e pistolas de dois canos, ambas com munição de espoleta. Para o fabrico destas peças, importa ressaltar a confecção das “culatras” que são peças de fundição com que se confeccionam os mecanismos de bronze - canos, gatilhos, etc.

Arpilheira

Técnica de formar figuras da fauna e da flora, com sobras de tecido, aplicadas em alto relevo, sobre outro tecido.

Boleado

Técnica de transformar material plano em forma boleada. O boleador de metal é aquecido no fogo e ainda quente é colocado sobre o material.

Com o auxílio das mãos criando-se pequenos sulcos, valetas ou nervuras na matéria-prima, como papel, EVA, fibras vegetais, tecido e material sintético.

Bordado

Técnica executada sobre tecido ou outro suporte utilizando agulha, linha e bastidores, podendo ser trabalhada com as mãos ou feita em máquinas de pedal ou de motor elétrico.

Rococó

Sequência de pontos sobre o tecido em torno de uma agulha. A agulha é introduzida tantas vezes quantas desejadas e no mesmo lugar. Com o auxílio de uma agulha de fundo pequeno que permita a passagem através da linha enrolada, puxa-se a linha até obter o ponto rococó desejado.

Carpintaria

Técnica que consiste em trabalhar a madeira formando peças de arte, utilitária ou decorativa.

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