Articulistas

Crônica de Natal

Maria do Carmo Almeida Corrêa
| Tempo de leitura: 2 min

Não vou falar dos Natais da minha infância. Nem sei se eram felizes. Havia o presépio, que minha mãe fazia caprichosa e caprichadamente. Lembro-me, sobretudo, dos patinhos de celuloide que boiavam singelamente na superfície de um caco de espelho.

Também não vou lembrar os Natais da juventude. Foi às vésperas de um deles que julguei ter perdido o grande amor da minha vida. Tinha eu então meus quinze anos. Pedia ardentemente a quem quer que fosse que comandasse as coisas lá do alto, que me trouxesse de presente a reconciliação. Mas ao que parece não eram esses os seus desígnios.

Havia, é verdade, uma parte de mim que ansiava por se deslumbrar com a pequena e tosca árvore de Natal, a cada ano enriquecida com novos enfeitinhos, e outra que sabia lá por dentro que era tudo invenção para fugir de um cotidiano implacável e inaceitavelmente banal. Pior que banal, era um árido dia-a-dia que se fazia necessário viver. E os Natais foram se tornando mais uma imposição de felicidade obrigatória e de simulada magia.

Era assim que se formava o germe da poesia. Era preciso extrair do fastidioso e odioso terra-a-terra, o sumo da alegria e do deslumbramento que poderiam dar um aparente e transitório sentido a uma vida lucidamente rasa e tediosa. Então me dei o grande presente de todos os Natais: o deslumbramento assumidamente ingênuo da fantasia. E me via chorando pelos Natais idealizados da infância e por alguma coisa que jamais teria.

Maldita lucidez que o tempo mal disfarça e o pensamento repentinamente desnuda. Bendita poesia que faz a necessária transmutação de água em vinho e que, repentinamente embriaga, ao ser tragada a largos ou pequenos goles na comemoração de cada renascimento.

A autora, Maria do Carmo Almeida Corrêa, é membro da Academia Bauruense de Letras e do Grupo Expressão Poética

Comentários

Comentários