No ano que vem eu vou... Assim começam milhões de frases contendo intenções, promessas, votos e objetivos traçados ali no limite entre um ano e outro, muitas vezes, logo antes dos fogos começarem a espocar. O Ano Novo traz a mudança na data e gera uma natural vontade de mudar o que já identificamos como incômodo em nossas vidas ou de colocar em prática uma correção de rota em alguns pontos que entendemos devem ser alterados (leia mais na página 5).
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João Rosan |
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Nova página em branco: Natália Conte fez promessa de correr São Silvestre, não conseguiu cumprir, mas vai renovar voto para 2014 |
O que surge vai desde uma única meta até listas contendo novos planos para novos dias. Porém, os 364 dias que se seguem ao Réveillon quase sempre tratam de enterrar as boas intenções e a força de vontade tão presente no momento do “juramento”. Antes mesmo do meio do ano, já se percebe que ficaremos devendo algo a nós mesmos.
A jornalista Natália Conte faz parte da legião de pessoas que fazem as promessas com sinceridade - ao contrário de muitos políticos em época de eleição -, mas que acabam não cumprindo o que desejam. Conte entende que as promessas de final de ano são inevitáveis. Como milhões de bem intencionados, também fez sua lista de projetos para 2013. “Todo final de ano todo mundo faz um monte de promessas. A gente faz promessa principalmente de emagrecer, de mudar de vida, de ter uma vida mais saudável, comer melhor”, aponta. Porém, com a virada do ano, a rotina vai tornando a missão de cumprir o que se planejou complicada, argumenta. “Chegou o Carnaval, você já desanima, vai deixando de lado”, brinca Conte.
No caso da jornalista, as principais dívidas ficaram no campo da saúde. “No começo do ano eu falei que eu iria correr a São Silvestre. Falei que iria entraria para um grupo de corrida e iria à São Silvestre nem que fosse para correr metade do caminho. Você coloca isso como meta, mas não consegue ir até a pessoa que pode lhe ensinar a correr”, admite. “Esta foi a minha principal promessa que eu não consegui cumprir. Eu prometi que iria começar a correr, que iria me alimentar de uma forma mais saudável. Só que eu não consegui fazer nem metade do que eu pretendia”, lamenta.
Conte relata que os principais motivos que levam as promessas a naufragar é a rotina desgastante, que relega os novos projetos a um segundo plano, restando somente as intenções. “A rotina, correria, problemas de família, problemas de trabalho... A verdade é que os dias começam a passar e você não percebe que já está no meio do ano. Quando você percebe, já está em junho e não conseguiu cumprir nada daquilo que queria”, constata.
Para ela, é preciso repensar as prioridades e não deixar a promessa se tornar um “eco” dos fogos de virada do ano para não ficar em dívida consigo. “O que falta para a gente é lembrar da promessa todos os dias. Você vai deixando, vai deixando e na hora que vê vai colocando prioridades, que sempre são trabalho, família e estudo algumas vezes, e tudo entra em primeiro lugar. Principalmente a questão de saúde a gente deixa para trás. A hora que você vê, é fim do ano”, comenta.
Promessa cumprida
Mas nem toda a lista de intenções para 2013 não foi cumprida. Conte comemora ter cumprido uma promessa importante profissionalmente. “Fiz uma promessa de que iria entrar no mestrado neste ano. Terça-feira tenho a resposta se entrei ou não. Estou na última fase e provavelmente eu tenha entrado”, projeta.
Além disso, outro início de ano se aproxima e vale renovar as promessas. É o que Conte pretende fazer, repetir os “juramentos” e cumprir os objetivos. “O voto de disputar a São Silvestre está renovado e também os votos de me alimentar melhor, fazer uma atividade física permanente, não começar um mês, sumir e depois nunca mais fazer. Aquela coisa de entrar na academia, pagar um pacote de três meses, ir um mês e desistir”, conclui.
Anseios e ‘sensação de incompletude’
Os desejos, promessas e anseios que são marcantes em momentos como a virada do ano, mas persistem em todos os meses do ano de nossas vidas, seriam oriundos da “sensação de incompletude”, de acordo com o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate. Esta impressão estaria na origem de todos os desejos, inclusive os de mudanças e novos rumos, característicos de um momento em que a data muda e, portanto, todos poderiam também mudar. Além disso, seria responsável pela recorrente sensação de insatisfação que todos já sentimos.
De acordo com Gikovate, a sensação de incompletude “nasce” junto com a pessoa. “A separação entre sexo e amor é indispensável para entendermos a origem da sensação de incompletude: ela deriva da simbiose uterina original. O nascimento é o nosso maior trauma, a ‘expulsão do paraíso’, a ruptura do elo original com a mãe gera a sensação de que algo está faltando”, considera, em texto no Facebook e vídeo em seu site. “É uma espécie de ‘buraco’ que se transforma em inquietação, insatisfação, num vazio permanente que nos acompanha nos anos de infância, adolescência, vida adulta, maturidade e velhice. Não desaparece nunca”, acrescenta.
O psicoterapeuta aponta que o antídoto para este “buraco” é o encontro de uma parceria amorosa estável e gratificante. Gikovate também entende que é possível atenuar esta sensação com relações de amizade ou em momentos em que o indivíduo se sente integrado, em um conjunto maior, como em grupos religiosos ou na identificação com a pátria, por exemplo. “Isso dá uma sensação extremamente agradável porque alivia de uma maneira sólida, consistente, razoável, a sensação de incompletude”, define.
Gikovate destaca, no entanto, que estes anseios não são compartilhados pela socidade porque o consumismo não se beneficia deste tipo de encaminhamento. Ao contrário, o consumismo se beneficia da presença deste “buraco”, que pede coisas e nunca sacia a sensação de incompletude. “A incompletude se atenua no amor e isso não interessa a uma socidade que visa o consumismo como meio fundamental de organização de sua própria economia”, analisa.
Frustrações devem ser enfrentadas com coragem, diz psicanalista
Quando o balanço que fazemos do nosso ano e as promessas não cumpridas se tornam motivo de uma frustração mais séria, com sentimento de fracasso e reação negativa que pode levar até a estados de depressão, o psicanalista René Schubert defende terapia para trabalhar com o paciente a tolerância a esta frustração e a motivação e persistência no estabelecimento e manutenção de metas e projetos de vida.
“Por vezes, algumas crenças e imagens internas que a pessoa tem em relação a si e em relação ao mundo precisam ser revistas, trabalhadas e ressignificadas. Em outros casos, é preciso fazer um trabalho mais profundo com o paciente e até mesmo com seus familiares. Algumas feridas psíquicas são superficiais; outras são muito antigas e profundas”, pontua Schubert em seu blog.
O psicanalista salienta que o tratamento deve considerar o indivíduo como um ser total, com seus desejos, expectativas, capacidades e dificuldades. “Como um ser inserido e em relação a um sistema maior: sua família, sua profissão, seus relacionamentos, seu meio cultural”, afirma.
Schubert argumenta que a angústia, frustração e sentimento de inadequação e incapacidade podem ser trabalhados e elaborados na medida em que o indivíduo buscar novas soluções e se disponibilizar a enfrentar seus medos.
“Embora o tratamento possa encontrar dificuldades e barreiras, possibilita uma nova perspectiva e visão desta época do ano, do fechamento de um ciclo, para o início do novo, para a reinvenção de si mesmo”, considera o psicanalista.
O que você gostaria de realizar em 2013, mas não conseguiu?
Fazer uma viagem agradável com a família ou com os amigos, realizar o tão esperado sonho da casa própria e investir um pouco mais na profissão.
Esses são os desejos mais comuns daqueles que trabalharam muito neste ano e que vão entrar em 2014 com a esperança de colocar tudo em prática. Acompanhe, a seguir, alguns relatos.
“Eu gostaria de ter feito tanta coisa. Por exemplo, uma viagem. Não sobrou muita coisa do meu salário para viajar com a minha família. Mas já planejei tudo para 2014: em março vou começar a pagar uma viagem e, no final do próximo ano, quando eu entrar de férias, eu vou com meu namorado para o Rio de Janeiro”. Letícia
Marcela Demarcki, 19 anos - Operadora de cobrança
“Embora 2013 tenha sido um ano bem proveitoso, porque eu consegui quitar as minhas dívidas para entrar em 2014 com o pé direito, faltou eu fazer uma viagem para a praia com a minha família. Minhas férias começam agora em janeiro e, assim que receber meu salário, pretendo ir para a Praia Grande ou para alguma praia em Santa Catarina”.
Willian Silva de Oliveira, 29 anos - Vigilante
“Eu acredito que fui muito feliz em 2013. Consegui realizar praticamente tudo o que idealizei e acho que não deixei nada para trás. Minha filha se formou, reformei a minha casa e meu trabalho foi bastante proveitoso. Espero que continue da mesma forma em 2014”.
Rozeli Gelio da Silva, 54 anos - Bancária
“Um sonho que eu não consegui realizar em 2013 foi ter uma casa própria. Já estou juntando dinheiro e, se Deus quiser, vou conseguir comprá-la em 2014”.
Wilson Rosa Sobrinho, 36 anos - Soldador
“Eu queria ter investido mais na minha carreira. Meu sonho é ser fotógrafa, mas não consegui fazer um curso neste ano. Vamos ver se em 2014 eu consigo”. Jéssica
Aparecida Lopes Siqueira, 16 anos - Estudante