Cultura

A regra é não ter regras


| Tempo de leitura: 5 min

Regra número 1 para alcançar êxito em uma novela: não ter regras. Mal ou bem, escritores e diretores sabem há muito tempo o que pode afastar o público da frente da tela, mas as supostas receitas de sucesso dependem de tantos fatores externos, que é imponderável oferecer garantias de audiência. O que há em comum, por exemplo, entre O Cravo e a Rosa, atualmente reprisada pela terceira vez no Vale a Pena Ver de Novo, e a inédita Amor à Vida, na faixa nobre, além da boa audiência de ambas? São do mesmo autor, Walcyr Carrasco, para quem o ideal é dispensar fórmulas.


Ao lançar Félix (Mateus Solano) na fogueira que trouxe à tona a atrocidade cometida pelo vilão com a sobrinha recém-nascida na novela das 9, Carrasco atraiu a audiência para recordes no Ibope, mas queimou o que seria seu principal cartucho dois meses antes do fim da trama. “Eu já havia feito isso em Caras & Bocas e também, em Xica da Silva”, disse ele à reportagem.


“Acho que o autor tem uma antena para captar o que está acontecendo, assim como todo criador. Mas, não vejo isso de maneira técnica, porque pessoalmente não me apoio em nada que se pareça com fórmulas”, continua. Vale mais, para ele, “a sensibilidade dos autores, que também entram na velocidade do mundo em que vivem.”


Autor do remake de Saramandaia, novela de Dias Gomes, de 1976 que teve o realismo fantástico recriado para o contexto de 2013, Ricardo Linhares concorda que receita não há. “Não existe fórmula nem receita”, afirma. “Novela não é ciência exata. Só dá para saber o que vai pegar quando a novela está no ar”. Defende que cada escritor tenha seu estilo, mas sem essa de “certo ou errado”. “Uma novela pode ter um ritmo frenético e não cativar, outra trama pode ser mais lenta e cair nas graças do público.”


Dar agilidade ao ritmo do folhetim foi estratégia que se mostrou acertada em Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro. Mas esse foi apenas um dos fatores que fez a felicidade de um folhetim com direção igualmente sensível e um elenco raramente tão afinado. Afinal, quais são as demandas desse público hoje dividido entre tantas telas?


“Não sou estudioso de demandas de audiência para saber dar uma resposta”, admite Carrasco. “Acho que a novela em essência continua a mesma, um triângulo amoroso, um bom vilão ou vilã. Ou seja, a essência da novela não mudou.”


De modo geral, emenda Linhares, “tanto na TV quanto no cinema, vivemos uma fase de mais agilidade”, o que não é obra da narrativa seriada, como gostariam os fãs de séries. “A vida hoje tem um ritmo frenético e a ficção reflete isso. Não há tempo a perder. A novela precisa dizer logo a que veio.”

 

‘Personagem precisa ser maior que a vida’, afirma Aguinaldo Silva

Além da luta para permanecer no ar e angariar audiência, poucas novelas conseguem ter sobrevida. Um exemplo atual é o filme Crô, em cartaz desde 29 de novembro. O longa é um spin-off da vida de Crodoaldo Valério, mordomo interpretado por Marcelo Serrado em Fina Estampa, exibida entre 2011 e 2012, na Globo. Ambos foram escritos por Aguinaldo Silva.


Apesar de não ser o protagonista da trama, Crô agradou ao público e foi ganhando destaque. No filme, após herdar a fortuna de Tereza Cristina (Christiane Torloni), ele procura uma nova patroa para servir. Segundo o autor, que já adaptou para o cinema a história de Giovanni Improtta, bicheiro de Senhora do Destino (2004) vivido por José Wilker, o personagem tem de chamar a atenção para além da trama na qual está inserido. “Ele precisa ser maior que a vida, ou seja, maior que a novela da qual fazia parte.”


Ele, porém, garante não escrever tramas pensando em qual personagem pode ter desdobramentos fora da TV. “Nunca. Quando começo uma novela só penso numa coisa: a novela. Todo o resto, inclusive minha vida pessoal, é esquecida. Agora mesmo estou às voltas com um seriado, Doctor Pri, que será estrelado por Glória Pires, e já pensando em minha novela, que estreia em agosto, logo após a Copa.”


Aguinaldo ainda não divulgou o nome de sua próxima trama. Ele avisa que ela não terá um ritmo mais acelerado. “Minhas histórias são muito pensadas antes que eu comece a escrever capítulos. Minhas novelas têm começo, meio e fim, e nelas, cada revelação tem sua hora certa. Com o excesso de revelações e falsas reviravoltas, a novela roda, roda, roda e, feito um peru bêbado, volta ao mesmo lugar. Não fazem o meu gênero. Ou a história é boa e se sustenta sem truques, ou eu trato de arquivá-la e invento outra.”


Para ele, o segredo para o sucesso de uma novela é não repetir elementos de tramas anteriores. O novelista dá a dica do que considera ruim para manter a atenção do telespectador por meses no ar. “Há um recurso que eu não usaria, não porque tenha caído em desuso, mas porque, pela facilidade, eu sempre detestei: o quem matou.”

 

‘Regime’ forçado

Ricardo Linhares concorda com Manoel Carlos e Lauro César Muniz no que diz respeito à necessidade de se reduzir o número de capítulos. “Acredito que a tendência é a diminuição, como já acontece às 18h e às 19h”. Já a dificuldade de se reduzir a novela das 21h esbarra na sua condição de refém do Ibope, explica.


“São novelas mais longas e os capítulos são mais extensos. Mas é o produto que segura a audiência do horário nobre. A impressão que dá é que parte do público assiste à novela e depois vai se preparar para dormir. Os números caem após a exibição, os televisores são desligados, não há uma parcela substancial que migre para outras emissoras”. Daí novelas e capítulos tão grandes.


A estratégia de espichar o capítulo da novela das 9 tem funcionado instantaneamente. Ninguém nega que hoje Amor à Vida carregue os melhores números da faixa nobre. “Mas, na minha opinião, a longo prazo, pode causar desgaste no gênero, desinteressando as novas gerações”, arrisca Linhares.


“Tramas mais curtas, em número de capítulos e tempo de duração de cada capítulo, podem ter mais ritmo. E o espectador ganha em novidade, pois uma novela acaba mais rápido e estreia a seguinte, abordando outro universo temático.”

 

Comentários

Comentários