Transformar o que se tem em sentimento de felicidade talvez seja uma das maiores alquimias que o ser humano é capaz de fazer sem recorrer a fórmulas mágicas. É algo que não depende do poder e tampouco da quantidade de dinheiro, e sim da capacidade de receber. Para receber algo sempre é necessário criar um espaço; receber exige um movimento inicial de contração. Por isso, receber é problemático, na medida em que para fazê-lo é preciso entrar em contato com a necessidade, o que em muitas situações soa como fragilidade. Abrir mão do controle que se pensa exercer sobre as coisas que se passam ao nosso redor envolve um esforço maior do que parece.
Qualquer estrangeiro que desembarca em um lugar desconhecido fica inseguro e temeroso, precisa checar a cada passo seu controle interno e observar o ambiente: nada ali é dele, está apenas de passagem. Transformar em cidadão do mundo o estrangeiro que existe em cada um de nós é fundamental para que nos tornemos merecedores de receber e capazes de dar. Alimentar uma relação é realizar trocas, é o resultado do processo de dar e receber e trocas só são possíveis em um mundo onde o medo não transforma a relação em um jogo de cartas marcadas. Muitos nada trocam porque vivem a eterna fantasia de que o mundo lhes deve algo que não deu e em seu íntimo, acreditam que, em algum momento, receberão o esperado.
Entrar no caminho das trocas pode ser o desejo de muitos, mas há empecilhos. A empreitada esbarra em um modelo de vida construído dentro de uma cultura voltada para o individualismo, que olha o próximo como uma pedra deixada no meio do caminho. A vida passa a ser um longo exercício de construção de uma imagem, que substitui o aperfeiçoamento do espírito pela eficácia do vencedor.
A angústia que temos diante da possibilidade de sermos influenciados e modificados pelo contato com os outros é um temor que permanece como pano de fundo em toda relação mas, quanto mais alta a muralha, mais ameaçadores são os visitantes que delas se aproximam. Nos dias de hoje, o medo da influência acompanha a exigência de afirmação permanente da individualidade perante os outros. Ao invés de parceiros de uma viagem comum, os outros acabam sendo um desafio, diante de quem devo me fortalecer e definir os limites do que sou ou deixo de ser. O desejo de ser diferente e singular se confunde com uma exigência sem fim, pela qual nunca chegamos a ter certeza se as nossas fronteiras estão garantidas e as identidades asseguradas.
O consumismo aproveita esta característica e transforma o ser humano num eterno devedor da obrigação de ser diferente ? de si mesmo e dos outros. O próximo, sempre diferente porque sempre será alguém fora do controle, aparece como um elemento perturbador, capaz de destronar a fantasia de sermos alguém com fronteiras claras, demarcadas e muito bem definidas. Ser cheio de si é uma maneira de se proteger de um mundo que vende uma coisa, mas entrega outra. Se fôssemos mais humildes, perceberíamos que na sociedade de consumo o que menos temos é a capacidade de gerir os nossos gostos e determinar as nossas próprias tendências.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru