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Mães aguardam filho perfeito

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 2 min

Como em todas as profissões a obstetrícia também tem o lado negativo, alerta o médico Calixto Felipe Hueb. Segundo ele, durante os nove meses de gravidez as mulheres se preocupam com a formação e a saúde do bebê, mas não estão preparadas para enfrentar as intercorrências do parto e do nascimento. Quando o imprevisto acontece, a alegria desaparece por completo e a decepção e a tristeza são inevitáveis.

“Nenhuma grávida entra no hospital para ter um filho pensando que durante o parto terá alguma intercorrência, isto é fato. Todas as mulheres querem um filho perfeito. Algumas mulheres entram em depressão. São até internadas. Não suportam a decepção de ter um filho com problema, uma deficiência.”

O médico comenta que muitas vezes faz um parto e nasce uma criança com síndrome de down e os pais ficam desesperados. “Atualmente há exames que detectam a deficiência, mas há 35 anos não havia e o nascimento se tornava um pesadelo para os pais. O autismo não tem como detectar.”

Hueb lembra que ouviu um depoimento de um pai de autista que descreveu a situação dele. “Ele descreveu a decepção que sofreu dizendo que esperava um filho para jogar futebol, brincar de carrinho, e de repente estava rodeado por psicólogo, fonoaudiólogo e um grupo de profissionais que ele nunca imaginou que tivesse que conviver.”

O avanço da medicina, de acordo com o obstetra, tem evitado algumas decepções, mas o autismo, por exemplo, não há como detectar. “O autismo se manifesta com 18 semanas. Uma paralisia cerebral pode acontecer no parto e os casais não estão preparados. Toda família entra no hospital feliz, rindo, brincando. Ninguém espera nenhuma intercorrência na obstetrícia, mas de repente pode aparecer uma, e quando acontece é um desastre.”

Ele lembra que, há anos, atendeu uma parturiente durante a madrugada. “Foi uma cesariana, toda a família feliz. Quando viram o bebê, ele tinha lábio leporino. O pai chorava a mãe chorava, toda a família ficou desesperada e eu tentando consolar. Ninguém se conformava com a situação.”

Pré-natal

Toda mãe tem muito medo que isso aconteça desde o início do pré-natal. “Elas ficam pensando, será que meu nenê está perfeito? O senhor viu os bracinhos, os pés, as perninhas? Passam os nove meses perguntando com a certeza de que o filho é perfeito. Ninguém pensa que pode ter um filho fora dos padrões, até porque isso só acontece na casa do vizinho.”

A mesma decepção ocorre quando uma mulher tem um abortamento espontâneo. “A mulher fica triste, sentida e se questiona, porque comigo? Elas precisam entender que é uma coisa decorrente da vida. Pode acontecer com qualquer mulher. O câncer de mama ocasiona o mesmo questionamento nas mulheres. Elas se perguntam por que comigo? Como isso foi acontecer?”

Na opinião dele, muitas dessas mulheres precisam de acompanhamento psicológico. “Não tem como fazer a prevenção porque ninguém prepara uma pessoa para aquilo que ainda não aconteceu. Depois que acontece, o acompanhamento é importante porque é preciso superar.”

 

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