Reprodução/João Rosan |
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Além de série na TV, famosa dona de bordel de Bauru inspira novo livro |
Não bastasse o autor Walter Negrão (seu mais recente trabalho na Globo foi a novela Flor do Caribe) estar na iminência de ver sua série sobre Eny Cezarino aprovada pela Globo, agora é o jornalista Lucius de Mello que prepara uma segunda obra tendo ela como tema. Eny foi uma das maiores, se não a maior, cafetina do país.
Lucius de Mello, hoje um dos diretores de redação da Rede Record, que começou sua carreira em nível nacional na Globo Bauru, em 85, na então TV Globo Oeste Paulista, já escreveu “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”, uma biografia romanceada dela.
Embora tenha também passagem pela televisão no Paraná, em Foz do Iguaçu, Lucius de Mello viu sua carreira deslanchar aqui em Bauru. Sua família, inclusive, residiu aqui. E seu primeiro livro, “Um Violino para os Gatos”, de contos, foi lançado originalmente na cidade. E essa proximidade e as histórias que ouvia sobre a grande cafetina fez com que ele se interessasse pela vida dela.
“Eny e o Grande Bordel Brasileiro” foi descrito assim à época do lançamento, em 2002: “O autor recria ecos de uma época em que ainda existia pecado, quando em Bauru existia o bordel mais famoso do Brasil: a Casa da Eny. Garotas fabulosas, belas vítimas da intolerância, da pobreza e da ignorância, mas que fizeram a alegria de políticos, ricaços e jovens rapazes dispostos a perder a virgindade”. Claro que desta vez o lançamento da obra foi nacional.
Nova obra
Agora Lucius prepara nova obra baseada em frequentadores do bordel e o que ele, o bordel, chamado de A Casa da Eny, ou Eny’s Bar, representou para cada um desses frequentadores. E, claro, especialmente aqueles que tiveram contato direto com a meretriz.
A informação foi confirmada pelo mesmo em seu Facebook pessoal. “Neste momento, no entanto, estou proibido de adiantar detalhes sobre o novo livro”, disse Lucius ao JC. A pedido do seu editor, ainda não irá dizer quem são os entrevistados que se dispuseram a colaborar com o livro e dar seus depoimentos. Só irá falar quando tiver entregue os originais.
Pela magnitude da obra e importância da pesquisa, está claro que não será lançado antes de 2015. Lucius já concluiu a fase de pesquisa e está escrevendo a obra.
O motivo do sucesso
A jovem Eny, nascida em São Paulo, logo fugiu de casa e se tornou prostituta. Passou por diversas cidades, como Rio de Janeiro e no Sul do Brasil. Veio atracar suas trouxas aqui em Bauru e aqui construiu um império, uma casa de muito luxo, melhor do que muitos palacetes do Rio de Janeiro, que na época era a capital da República.
A famosa Casa da Eny foi visitada por presidentes e diversas personalidades. Reunia a nata da alta sociedade brasileira. Os artistas então, nem se fala. Todos que aqui aportavam para fazer seus shows tinham que passar pelo local. Alguns deles eram fregueses contumazes.
Entre 1963 e 1983, época do auge, Eny chegou a ter cerca de 70 meninas, inclusive, estrangeiras, trabalhando em sua casa de 40 quartos, saunas, jardins, restaurante, piscina, bares e salões de festas. Festas de confraternização de empresas e convenções de políticos, em pleno regime militar, eram comuns. Fica então, uma grande curiosidade sobre quem estará no livro de Lucius de Mello.
Diferencial: meninas bem cuidadas
Usando um bordão empresarial dos dias de hoje, onde para você se estabelecer e obter sucesso é preciso ter um diferencial, pode-se dizer que Eny sabia disso de antemão (ou talvez pela sua passagem pelos cassinos da Urca, antes de aqui chegar). Ciente do filão que explorava, oferecia aos ilustres clientes o sigilo absoluto de meninas bonitas, elegantemente vestidas, asseadas e regularmente atendidas por um médico, que cuidava, ainda, para que não engravidassem.
As moças podiam estudar e eram obrigadas a optar por um, dentre três, perfumes franceses recomendados por madame Eny. Aquelas que vinham de fora eram “orientadas” a trazer seu título de eleitora para a cidade. Com isso, ela angariava votos e ajudava a eleger amigos. Morreu em 1987 já sem o prestígio, nem os bens (foi proprietária de 26 imóveis e morreu pobre numa cama de hospital da Beneficência Portuguesa). Mas ficou também a memória e o carinho para suas obras filantrópicas, já que ajudou muitas instituições. Ela era muito benevolente. E em vida ajudou também muitas famílias.
O trabalho de Walter Negrão
Walter Negrão, escritor, autor de novelas de sucesso na Rede Globo, nasceu e viveu toda a infância e juventude em Avaré, distante 120 km do grande bordel. Talvez ele próprio tenha histórias para contar sobre aquela que é considerada a última grande cafetina do País.
Mas esteve em Bauru este ano para fazer a pesquisa in loco de uma sinopse de uma série sobre Eny Cezarino que já apresentou à direção da Globo.
Ele espera o retorno ainda para este ano, mas sabe-se de antemão que a emissora está com dificuldade para montar a grade de programação e as produções do ano por conta da Copa do Mundo.
Mas não foi no livro de Lucius de Mello que Walter Negrão foi beber para fazer a sinopse entregue à Globo. Ele teve, entre outras, a ajuda da professora Lucia Helena Ferraz Sant’Agostino, e de sua obra “Bauru, Chão de Passagem”. Aliás, Bauru é também chão de passagem para o novelista que tem amigos pecuaristas aqui, já que é também criador de gado nelore.
Especula-se que ele teria até uma atriz preferida para fazer Eny na fase mais madura, seria Vera Holtz. Quem será a protagonista e, se houver, vai depender de a emissora primeiro aprovar a sinopse do autor, que como ele próprio disse ao JC “está bem encaminhada, mas ainda dependendo de aprovação”.
O Trevo da Eny
De qualquer forma, o interesse do autor só reforça a importância da Casa da Eny, que até dá hoje denominação (informal) ao trevo da Rodovia Marechal Rondon com a rodovia Bauru-Ipaussu (Rodovia João Baptista Cabral Rennó). Lá, em 15 mil metros quadrados, fechado, o local resiste. Agora incrustrado em zona das mais nobres e valorizadas, onde o novo dono espera uma oferta para que o local abrigue algum desses novos empreendimentos imobiliários.
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