O significado da palavra trânsito, no dicionário Michaelis, é "o movimento de pedestres e veículos que transitam nas cidades ou nas estradas". Já no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) "é a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga". Então, o homem, o veículo e a via fazem parte do trânsito e quando nos deslocamos (de veículo, a pé, de bicicleta ou montado em um animal) estamos inseridos nesse conceito e podemos afirmar que o trânsito surgiu antes mesmo do que os veículos.
No passado, para a existência do trânsito, faziam-se necessários três elementos: a educação, a engenharia e o esforço legal (o famoso trinômio do trânsito). Atualmente, outros três elementos foram acrescentados: economia, ecologia e envolvimento social. Com a evolução dos tempos, surgiram as leis e regras de trânsito com a finalidade de discipliná-lo e todos passaram a ter direitos e deveres inclusive os pedestres. De acordo com o CTB "o trânsito, em condições seguras, é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do Sistema Nacional de Trânsito".
O CBT é rígido, mas por diversos motivos, nem sempre é obedecido, tornando o trânsito caótico e com muitos acidentes. O objetivo principal da educação no trânsito deve estar voltado para a prevenção, sempre buscando promover mudanças de atitude e de comportamento, para evitar acidentes e reduzir o número de vítimas, o que só será possível quando houver uma conscientização de todos. Nos dias atuais, o trânsito reflete a competição em busca de espaço, comodidade e rapidez. Na maioria das vezes, essa proximidade entre os motoristas e pedestres é considerada uma ameaça ocorrendo conflitos, infrações e até acidentes. A situação surge do nada, e o simples fato de uma das partes sentir-se prejudicada, agredida ou passada para trás, explode diante daquele que julga ser o seu maior inimigo.
A solução para os problemas do trânsito vai além da construção de novas obras, alargamento de vias, construção de viadutos, etc. Não existe fórmula matemática e não será uma atitude isolada que irá resolver o problema. Para garantir o equilíbrio entre esses interesses é que se estabelecem as normas e as leis de trânsito, entretanto elas estão se tornando ineficazes para evitar as infrações e os acidentes, pois os motoristas não estão preparados e não respeitam o próximo. Os motoristas e os pedestres precisam aprender a dividir o espaço. Educar para o trânsito possibilita reverter essa situação e torná-lo mais seguro e humano. Precisamos educar não só o motorista, mas o cidadão de um modo geral.
Os conceitos de trânsito devem ser difundidos nas escolas, já que os alunos serão os futuros motoristas. É na fase da infância/adolescência que ocorre a fixação do aprendizado, por isso a escola deve inserir o tema trânsito no cotidiano dos alunos, para que eles assimilem os conceitos de comportamento seguro nas vias e na condução de veículos e os transmitam dentro de casa e para outros condutores.
Difundir esse tema somente na Semana Nacional do Trânsito é insuficiente para que possamos ter um trânsito eficiente e seguro. O tratamento desse assunto deve ser ininterrupto, pois o trânsito é o responsável por uma das maiores taxas de mortalidade, de mutilações e incapacitações, além de gerar um prejuízo de bilhões de reais todos os anos. A educação deve criar condições, para que o aluno construa seu conhecimento, questione e liberte seu potencial. O papel da educação voltada para o trânsito seguro está previsto nos art. 74 e 76 do CTB, mas poucas ações são planejadas, desenvolvidas e coordenadas pelos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito e de Educação nas respectivas áreas de atuação.
Trânsito é o entroncamento dos diversos grupos sociais e constitui um complexo sistema do qual dependemos para desempenharmos nossas atividades, independente de sermos condutores, passageiros ou pedestres. Porém é evidente que, ao assumir o volante, o condutor sente-se em maior vantagem e com mais direitos e poderes do que os demais, abusando da condição em que se encontra. Podemos afirmar que a grande maioria dos motoristas entra nos veículos como se entrasse em um ringue de MMA ("Mixed Martial Arts", ou seja, Artes Marciais Mistas). Cortesia, respeito e responsabilidade constituem algumas das atitudes necessárias para a transformação do comportamento do homem no trânsito. As atitudes individuais devem ser em prol da coletividade, precisamos acabar com a famosa "Lei do Gerson".
O autor, Augusto Francisco Cação, é coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo, mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, especialista em Gestão e Direito de Trânsito e bacharel em Direito