O arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta, 63 anos, foi nomeado ontem cardeal pelo papa Francisco no Vaticano. Dom Orani é o único brasileiro na lista de 16 novos cardeais da Cúria Romana.
Segundo a Arquidiocese do Rio, ele recebeu a notícia após celebrar missa no início da manhã de ontem. “Em minha indignidade, tenho certeza que a graça de Deus não me faltará para poder bem servir à Igreja nessa dimensão universal que é a dimensão do cardinalato”, disse o arcebispo, acrescentando.
“Peço a todos que continuem rezando por mim para que possa continuar servindo a Deus, à Igreja, como tenho servido até hoje, mas agora com essa responsabilidade maior, que se une às que já desenvolvo.”
O assembleia na qual os novos cardeais serão consagrados está marcada para 22 de fevereiro, na Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Os cardeais têm a função de auxiliar o papa no desenvolvimento de seu ministério e trabalhar pela preservação dos fundamentos da fé católica. Agrupados no Colégio dos Cardeais, eles também participam do Conclave, reunião de escolha de um novo Papa.
Além de dom Orani, o Brasil tem atualmente outros nove cardeais o último a ser nomeado foi o ex-arcebispo de Brasília João Braz de Aviz, em 2012, pelo papa Bento XVI, que também elevou o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Raymundo Damasceno Assis, em 2010, e o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, em 2007.
Cinco dos atuais cardeais do País foram indicados pelo papa João Paulo II, entre 1988 e 2003, e o mais velho deles, o ex-arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, 92 anos, foi nomeado pelo papa Paulo VI, em 1973.
De acordo com a Arquidiciose do Rio de Janeiro, o Brasil teve 20 cardeais o primeiro deles, dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, nomeado em 1905, também era arcebispo do Rio.
Perfil do novo cardeal
Dom Orani Tempesta é arcebispo do Rio de Janeiro desde fevereiro de 2009. Paulista de São José do Rio Pardo, cursou filosofia no mosteiro de São Bento e teologia no Instituto Pio 11, ambos m São Paulo.
Em 7 de dezembro de 1974, foi ordenado presbítero de sua cidade natal. Em 26 de fevereiro de 1997 foi eleito bispo para a diocese de São José do Rio Preto (SP), governando-a até 2004, quando tornou-se arcebispo de Belém. Ficou na capital paraense até sua transferência para o Rio.
Em 2013, ocupou a presidência do comitê organizador local da Jornada Mundial da Juventude, que aconteceu em julho, no Rio, e teve como ponto culminante a visita do papa Francisco. Atualmente também é presidente do Conselho Nacional de Comunicação Social do Senado Federal, que reúne políticos e representantes da sociedade civil.
Presidente Dilma parabeniza
A presidente Dilma Rousseff disse ontem que recebeu com alegria a nomeação do arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, como cardeal pelo papa Francisco. “Recebi com alegria a notícia que Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, foi tornado cardeal pelo papa”, comentou a presidente em sua conta no Twitter.
Dom Orani Tempesta diz sentir ‘frio na barriga’ com nomeação
O arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta celebrou ontem, na Capital fluminense, sua primeira missa como cardeal nomeado pelo papa Francisco.
Ao entrar na Igreja da Ressurreição, em Copacabana, zona sul, foi aplaudido pelos fiéis que lotam o templo.
Pouco antes, durante o início da jornada católica na igreja, ele se dirigiu ao público para afirmar, com bom-humor, a importância das funções que lhe caberão como cardeal.
“Dá um frio na barriga. Foi uma surpresa. Sei que minhas responsabilidades vão aumentar. Peço a Deus que me dê o dom de bem representar o Rio e o Brasil no cardinalício”.
Para o padre Omar Raposo, reitor do santuário do Cristo Redentor, o sucesso da Jornada Mundial da Juventude, presidida por dom Orani em 2013, fez crescer o prestígio do arcebispo do Rio junto à Cúria Romana.
“A organização da Jornada, o sucesso da visita do Papa ao Rio, com certeza influenciaram na nomeação de Dom Orani”, disse o padre.
Dom Orani cumpre sua agenda normalmente neste domingo. Ainda hoje, visitará a comunidade do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana.
Indicação encerra uma longa espera
O papa Francisco encerrou uma espera de quase cinco anos ao indicar ontem como cardeal dom Orani João Tempesta, 63 anos, arcebispo do Rio de Janeiro.
Sua nomeação era aguardada desde 19 de abril de 2009, data em que assumiu o posto de arcebispo na cidade do Rio, uma arquidiocese, por tradição, sempre comandada por cardeais.
Às vésperas de cada novo anúncio na época do papa Bento XVI, o nome de dom Orani sempre era citado entre os possíveis cardeais nas especulações de religiosos com acesso ao Vaticano. Em 2010, o brasileiro escolhido foi dom Raymundo Damasceno Assis. Dois anos depois, foi a vez de dom João Braz de Aviz.
Com a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio, em julho de 2013, dom Orani alcançou uma visibilidade inédita em sua carreira religiosa. Mesmo assim, acabou preterido na nomeação de novembro de 2012, quando Bento XVI escolheu seis novos cardeais. No ano seguinte, em 11 de fevereiro, o papa informou que renunciaria ao cargo.
Cauteloso
Diante das mudanças, dom Orani, um homem sempre cauteloso ao expressar suas opiniões publicamente, evitou ao máximo se expor durante os meses que antecederam a JMJ.
Concedeu raras entrevistas exclusivas aos veículos de comunicação interessados em noticiar a Jornada. Suas declarações eram sempre em entrevistas coletivas, voltadas para pontos específicos da programação do evento católico.
Nos bastidores do comitê organizador da JMJ, assessores próximos a dom Orani falavam sobre o receio de que uma exposição excessiva naquele momento pudesse desagradar ao novo comando da Igreja Católica.
Na passagem de Francisco pelo Rio, dom Orani esteve sempre ao seu lado: nos passeios de papamóvel pelas ruas da cidade, na visita à comunidade pobre de Varginha ou na missa que reuniu mais de 1 milhão de pessoas em Copacabana.
Dúvidas
Sob o aspecto religioso, o evento organizado por dom Orani foi um sucesso incontestável, marcado por cenas do papa Francisco que emocionaram o público católico brasileiro. Entretanto, do ponto de vista financeiro, a Jornada se transformou em um grande problema, ainda não solucionado, para o arcebispo do Rio.
O custo da superprodução católica foi alto e resultou em uma dívida de R$ 90 milhões com fornecedores. Para amortizar este valor, a Arquidiocese autorizou a venda de um imóvel no valor de R$ 46 milhões, em outubro de 2013.
No início de janeiro, a Igreja confirmou a doação do Vaticano de R$ 11,7 milhões, com o aval do papa Francisco, para reduzir a dívida. Com a contribuição de Roma, ainda restam R$ 31,5 milhões a pagar.