Considerando o cenário macroeconômico, há consenso que a política cambial no Brasil será o grande desafio em 2014. A recuperação econômica norte-americana indica maior rigidez monetária naquele país. Traduzindo: haverá menos incentivos públicos na economia dos Estados Unidos, com menor emissão de moeda e com elevação da taxa de juros. Assim, conviveremos com menor oferta de dólares no mercado e os dólares que estão fora dos Estados Unidos tendem a voltar para lá em busca de rentabilidade.
O Brasil e outros países emergentes conviverão com pressão diária do setor cambial, ou seja, a demanda por dólar será maior do que a oferta, forçando ações mais firmes da autoridade monetária local, tendo que oferecer a ração que o mercado deseja, isto é, mais oferta de moeda estrangeira utilizando os instrumentos disponíveis, como uso das reservas cambiais, emissão de títulos públicos atrelados ao dólar entre outros.
Mesmo assim é possível estimar que o dólar não permanecerá no patamar atual. É factível projetar um dólar oscilando mais próximo dos R$ 2,45 do que dos R$ 2,40.
Com dólar mais elevado as importações de produtos, máquinas e equipamentos se tornarão mais caras, criando um ambiente de pressão sobre os preços, indicando novo desafio a frente: evitar que se instale no país a chamada inflação importada.
Na outra ponta, poderá ocorrer melhoria nas exportações. Observem que coloquei poderá, à medida que exportar não é somente ter um câmbio favorável. É também ter, mas não garante sucesso no comércio internacional.
O país observa a desindustrialização. O saldo comercial do setor industrial brasileiro é desastroso com déficit em 2013 na casa dos US$ 105 bilhões. O setor industrial brasileiro está encolhendo e a economia local sobrevive com o crescimento do setor terciário, o qual abriga o comércio e serviços. Isso é temeroso.
Não fomos capazes de introduzir no país uma política de substituição de importações. Além disso, o chamado custo Brasil tira toda e qualquer possibilidade de competirmos em igualdade de condições com o resto do mundo. Baixa produtividade da mão de obra, elevado custo de pessoal, portos obsoletos, aeroportos com enormes gargalos, estradas precárias, falta de armazéns, Judiciário lento, Estado inchado, carga tributária nas alturas, juros exorbitantes enfim, uma enorme lista que retrata a inoperância interna.
A pauta de exportação brasileira é pobre. Nos valemos da exportação de commodities e dependemos fortemente da importação de produtos com elevada tecnologia. A conta não fecha.
Pode-se observar que o Real desvalorizado diante do dólar é somente uma face do problema. Ajuda, mas não resolve o problema.
Com este cenário é previsível, o que ocorrerá com o setor externo brasileiro: juros altos para atrair capital estrangeiro e com isso a balança de capitais irá ajudar a fechar o balanço de pagamentos, quando na verdade a balança comercial (que registra exportação e importação de mercadorias) é que deveria dar o tom da relação do país com o resto do mundo.
Não investimos na direção certa, com pífios gastos em ciência e tecnologia, não forjamos nossa mão de obra e ainda desperdiçamos recursos públicos. Não atuamos na redução do custo Brasil, assim desvalorizar a moeda interna é muito pouco para potencial de nosso país, lamentavelmente.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC