Após forte pressão dos EUA e de ameaças de boicote da oposição síria, as Nações Unidas decidiram retirar o convite feito ao Irã para participar da conferência pela paz na Síria, marcada para começar amanhã, em Montreux (Suíça), e se estender nos dias seguintes em Genebra.
Na noite de anteontem, a ONU anunciou que Teerã fora convidado ao evento. O país persa confirmou presença, mas alertou que não estava comprometido com o estabelecimento de um governo de transição na Síria, um dos termos acordados na primeira conferência de Genebra, em 2012.
A notícia causou imediata reação dos demais participantes da reunião. Diplomatas dos EUA reuniram-se com a ONU para discutir o convite. Funcionários do Departamento de Estado afirmaram que esperavam da ONU uma reconsideração.
Ontem, em nota, o Departamento disse que agora era hora de “todos retomarem o foco, que é encerrar o sofrimento sírio (...) por meio de uma transição política”.
A Coalizão Nacional Síria, principal grupo de oposição, afirmou que boicotaria as negociações, caso o Irã não fosse desconvidado. Depois, em comunicado, disse que a ONU “tomou a decisão certa”.
Em resposta, Sergei Lavrov, chanceler da Rússia - país aliado do regime de Bashar al-Assad -, classificara de “pirraça” a posição dos rebeldes sírios.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, alegou que retirou o convite porque Teerã declarou que não apoia o acordo de transição política de junho de 2012 que é a base para as negociações.
Um dos participantes do evento, o Brasil enviará o secretário-geral do Itamaraty, Eduardo dos Santos. O número 2 representará o chanceler Luiz Alberto Figueiredo, encarregado de preparar a ida da presidente Dilma Rousseff ao Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça).
A conferência é uma tentativa da comunidade internacional de encerrar a crise, com implicações regionais, a exemplo da recente instabilidade no Líbano. Os atrasos nas negociações são seguidos pelo agravo da crise humanitária, no país.
A ideia de que rebeldes formem um governo na Síria foi, considerada uma “piada” pelo ditador sírio Bashar al-Assad, em entrevista à agência de notícias France Presse, na qual ele também afirmou haver chance “significativa” de que concorra a um novo mandato em futuras eleições.
“Eles vêm para a fronteira para uma (...) fotografia de 30 minutos e então fogem. Como podem ser ministros?”, disse Assad. Ele se referia à oposição que vive no exterior.
A insurgência síria foi iniciada em março de 2011 e, desde então, já deixou mais de 130 mil mortos no país, de acordo com estimativas da ONU -que, no entanto, deixou de atualizar as cifras.
Assad descreveu a insurgência como grupos terroristas financiados por atores como Qatar, Arábia Saudita e EUA. “Quando nos sentamos com essas organizações, estamos na verdade negociando com esses países.”