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O assaltante!

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 3 min

A sua cabeça estava povoada de maus presságios. Os pressentimentos eram os piores possíveis. A sua carreira profissional, até então brilhante, poderia terminar ali, inclusive com manchetes nos jornais. O seu casamento também poderia chegar ao final. Enfim, uma desgraça poderia se abater sobre a sua vida. Ele cometera um crime: acabara de praticar um assalto! E estava indo ao distrito policial. Dentro de alguns minutos a sua sorte ou o seu azar estaria nas mãos do delegado.

Enquanto dirigia, relembrava os fatos. Estava indo ao aeroporto aguardar a chegada da sogra. De repente, viu um homem fazendo sinais. Dar carona a desconhecidos não é coisa boa, pensou. Mas era época de Natal, de alegria e fraternidade, e não custava nada praticar uma boa ação. O passageiro embarcou e nem sequer agradeceu. O motorista puxou conversa. O primeiro assunto não prosperou. O segundo nasceu morto. Desistiu. E começou a desconfiar das intenções do carona. Num lugar menos movimentado certamente ocorreria o assalto! Passou a mão no bolso da camisa, onde costumava guardar a carteira com o dinheiro e todos os documentos. A carteira já não estava no lugar de costume. Havia, até, uma explicação: quando ajudou o carona a fechar a porta, este se aproveitou do descuido. A carteira "já tinha ido". Em seguida, seria o carro. Ou, talvez, a sua própria vida! Não teve dúvidas: jogou o veículo no acostamento, freou bruscamente, sacou o revólver que mantinha escondido sob o seu assento e exigiu que o carona lhe entregasse a carteira imediatamente. Já sem o carona, mas com a carteira no seu devido lugar, saiu cantando pneus, com o coração em sobressaltos. Chegou ao aeroporto e foi informado que o voo da sogra sofrera um grande atraso. Ligou para a esposa, falando da demora. E ouviu o seguinte: "Você saiu sem documentos, pois esqueceu a carteira aqui em casa!" Tirou a carteira do bolso e levou um susto: realmente não era a sua. Agora estava indo à delegacia, mas não imaginava como terminaria aquele drama.

Meio desnorteado, entrou em uma sala. Que, por coincidência, era a do delegado. Que estava atendendo exatamente a vítima do assalto. Que imediatamente gritou: "Foi ele, doutor! Foi ele que me assaltou!" O delegado também ficou surpreso: em trinta anos de carreira, era a primeira vez que um assaltante o procurava logo após cometer o crime. Depois de longas e minuciosas explicações, o delegado se convenceu da "inocência" do "assaltante", que era um jovem bom, honesto e trabalhador, que, pressionado pelas circunstâncias, cometera apenas um "deslize". E resolveu dar o caso por encerrado. Afinal, havia tantas ocorrências realmente graves aguardando uma solução. "Assaltante" e assaltado saíram da delegacia juntos e conversando. Desta vez a carona não teria assaltos e nem sobressaltos!

Em tempo: a história de hoje não tem a chancela da veracidade. Ela me foi contada pelo primo Rubens (dr. Rubens De Conti, médico), lá de Curitiba, que me garantiu ser verdadeira. Mas como ele já foi um excelente pescador...

O autor, Ismar Pereira, é advogado aposentado e colaborador de "Opinião".

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