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?Ter um teto de alvenaria é tudo?

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

Aqui é o céu! É assim que três das nove famílias desabrigadas em Bauru após as chuvas descrevem a sensação da estadia em um hotel pela primeira vez na vida. “Ter um teto de alvenaria, chuveiro quente, comida farta na mesa e poder ficar descalça sem sujar os pés na lama é tudo na vida”, comentam as vizinhas Lucineide Cristina da Silva, de 31 anos, Alessandra Aparecida Bernardes, de 28 anos, e Vanessa Aparecida Barbosa Leite, de 31 anos.

Além dos filhos, da roupa do corpo e de poucos documentos, elas perderam tudo o que tinham em meio à lama e a enxurrada, que arrasou os barracos da rua Dois da favela São Manoel, anteontem pela manhã.

Ao todo, 37 pessoas, de nove famílias diferentes, ficaram desabrigadas e precisaram ser inseridas no programa Contingente de Calamidade Pública, da Secretaria do Bem Estar Social (Sebes), que inclui o encaminhamento para hotéis sociais custeados pela pasta. Lá, além de três refeições ao dia, as famílias devem receber acompanhamento diário de assistentes sociais.

Mesa farta

Localizado entre a rua Monsenhor Claro e a avenida Rodrigues Alves, o hotel que recebeu os desabrigados após as chuvas pode parecer simples para algumas pessoas – não tem ar-condicionado e alguns quartos têm banheiro coletivo –, mas não para as famílias de Lucineide, Vanessa e Alessandra, que trocaram os barracos com fossa e chão de terra batido, em área de risco, pelo hotel com quartos limpos, banheiros, refeitório e sala de estar, em pleno Centro.

“Apesar de tudo o que aconteceu, está sendo muito bom. Na minha vida eu só servi os outros e, agora, estou sentindo como é ser servida também”, brinca a dona de casa Vanessa Leite. Assim como as outras moradoras, ela nunca esteve hospedada em um hotel.

“Meus filhos adoraram o café da manhã, a mesa é farta. Tem frutas, pães, bolos, chás, café, leite e bolacha. Lá em casa era só pão, leite e bolacha”, completa Lucineide, que trabalha em uma lanchonete.

A mesma percepção era dividida por Alessandra. “Aqui é tudo de bom, se comparar com a favela. Lá eu tinha mais liberdade por estar em casa, mas não há nada melhor do que ter uma parede e um teto de alvenaria. Se Deus quiser, casa de madeira na favela nunca mais”, fecha questão a dona de casa Alessandra.

Ainda durante a entrevista, as três mulheres brincaram pisando descalças no chão, comemorando o piso frio limpo em vez do chão de terra batido.

“É muito bom andar descalça e não sujar os pés com terra. Até as crianças estão brincando mais à vontade”, frisa Lucineide.

O desejo de todas elas? Serem incluídas no programa habitacional Minha Casa, Minha Vida. “O meu sonho é ter um apartamento lá do programa”, responderam as três mulheres, simultaneamente.


Estadia das famílias durará o tempo que for necessário, declara Sebes

Não há um prazo específico para que as nove famílias desabrigadas deixem os hotéis sociais. Tudo dependerá das situações e da condição de cada uma delas. A afirmação é da secretária do Bem Estar Social, Darlene Tendolo.

“Vamos mantê-los acolhidos o tempo que for necessário para que se reestruturem. Em situações anteriores, tivemos uma família que permaneceu por quase um ano em hotel social”, lembra.

O programa Contingente de Calamidade Pública da Sebes é vinculado à Casa do Garoto – entidade social do município –, que recebe uma verba de R$ 27.754,52 para subsidiar vagas em hotéis e aluguéis sociais para desabrigados.

Ainda de acordo com a secretária, há a possibilidade de a prefeitura também auxiliar financeiramente os desabrigados na compra de materiais de construção para reforma das residências nos casos menos graves e em que os próprios moradores optarem pelo retorno.

MCMV

Além da ajuda temporária, Darlene prometeu enviar, nos próximos dias, um relatório à vice-prefeita Estela Almagro, que também coordena o projeto Minha Casa Minha Vida em Bauru, para tentar viabilizar, por meio da demanda dirigida, vagas para os desabrigados na segunda fase do programa. Se a medida der certo, famílias como a de Lucineide, Alessandra e Vanessa serão beneficiadas.


Pesadelos

A cena dos barracos desabando e sendo alagados por um córrego que transbordava às margens da linha férrea, na favela São Manoel, por volta das 6h de anteontem, marcou Alessandra.

“Tive pesadelos com isso à noite. Na hora da chuva eu estava dormindo com meu marido e só acordei depois de ouvir os gritos da minha sobrinha na casa ao lado. Quebrei a porta do barraco para acordar minha irmã, peguei o que deu e saí para a rua. Menos de 10 segundos depois, meu barraco começou a desabar”, lembra a moradora.

No mesmo momento e a alguns metros dali, Vanessa, seu filho de 14 anos e seu marido acordavam assustados com a água que batia no pé da cama.

Tudo ao chão

“Corremos para a casa da vizinha e depois para a rua. Eu não sei nadar e tenho pavor de água. Alguns minutos depois tudo estava indo para o chão”, conta Vanessa.

Fogão, televisão, geladeira, roupas, armário, alimentos. Tudo foi perdido na casa de Lucineide, que morava com mais três filhos em outro barraco da rua Dois.

“Eu cheguei do trabalho às 5h, logo depois a chuva começou. Quando percebi que ia alagar tudo, liguei para o meu irmão, que correu para casa e me ajudou a salvar as crianças e alguns documentos”, detalha.

O episódio, por pouco, não registrou mortes. Em duas das situações mais graves, registradas nas avenidas Nuno de Assis e Nações, passageiros foram resgatados por cordas e por um bote salva-vidas do Corpo de Bombeiros, respectivamente.

37 Desabrigados

A Sebes atualizou para 37 o número de pessoas que ficaram desabrigadas após o temporal da última quinta-feira. O número inicial, conforme o JC divulgou na edição de ontem, era de 15 pessoas.

Das nove famílias beneficiadas pelo hotel social, oito são da favela São Manoel e uma do Pousada da Esperança.

“Das três famílias que ficaram desabrigadas no Pousada, apenas uma, com sete pessoas, precisou do hotel. As outras seguiram para casas de parentes e aluguéis sociais”, afirma Darlene Tendolo.


Donativos

A Secretaria do Bem Estar Social realiza uma campanha para arrecadação de donativos que serão disponibilizados às famílias desabrigadas devido ao temporal de quinta-feira.

“Necessitamos de tudo o que é básico em uma casa. Desde roupas até geladeiras, fogões e televisores. Afinal, eles perderam tudo o que tinham”, aponta Darlene Tendolo.

Serviço

As doações devem ser entregues na Sebes, na quadra  1 da avenida Alfredo Maia, no Centro. Mais informações: (14) 3227-8624.

 

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