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Agrotóxico traz um dilema na mesa

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

A onda de consumo de alimentos saudáveis e naturais confronta diretamente com a escalada da fome no mundo. O desafio das nações é produzir alimento suficiente para garantir comida na mesa todos os dias para milhões de pessoas. Nessa esteira, o agrotóxico, ainda que paradoxalmente para alguns, é vital para a sobrevivência da espécie nas condições da vida humana da era moderna.

No Brasil, o confronto entre o “politicamente saudável” e a necessidade de matar a fome ganha dimensões peculiares. Vedete da agricultura mundial, o País que coleciona apelos, mercadológicos ou não, como o “rei da soja, das commodities de grão, o quintal da diversidade frutífera e a terra onde tudo que se planta dá”, também é o campeão mundial em uso de agrotóxico nas lavouras.

E os números do uso de “veneno” na agricultura são crescentes. Enquanto a área cultivada no País cresceu 4,59% segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2004 e 2008, por exemplo, a quantidade de agrotóxicos pulverizados nas plantações foi 44,6% maior no mesmo período.

Nos últimos 10 anos, o aumento no consumo de herbicidas, fungicidas, inseticidas e acaricidas atingiu 190% nas terras brasileiras.

Foram 852,8 milhões de litros de agrotóxicos distribuídos em 68,1 milhões de hectares de área plantada para sustentar a produção bruta de 144,5 milhões de toneladas no período, conforme os dados IBGE.

Campeão mundial em uso de defensivos, o Brasil responde pela compra de 17% desse tipo de produto entre todos os países, um mercado globalizado que faturou pouco mais de R$ 50 bilhões no último ano.

O agrotóxico é dominado pelas transnacionais Syngenta, Bayer, Basf, Monsanto, Dow e Dupont. Elas detêm 68% do mercado. De sua parte, a produtividade agrícola teve crescimento significativo no Brasil nas últimas décadas.

Em 1960, as lavouras de grãos produziam 783 kg por hectare (ha). Em 2010, a produção de grãos atingiu 3.173 kg/ha, uma evolução de 305% em 50 anos.

A despeito do tamanho do nicho, o fato é que o desafio é produzir cada vez mais para saciar a fome de milhões, missão que, no mundo do agronegócio, até por escala, significa, intrinsicamente, produtividade ancorada em número elevado de pulverizações de defensivos agrícolas.

Aqui, separado o mérito da discussão nutricional, a discussão é um prato salgado para o papel institucional do governo, de regulador das atividades no campo.

É a missão de garantir aumento de produção para a joia da balança comercial brasileira, a agricultura, sem “dar mole” sobre o controle sanitário dos produtos e sem deixar de fustigar a frágil fiscalização sobre os defensivos clandestinos.  

Malavolta Jr. 

A agricultura brasileira pulverizou plantas no campo com o uso de 852,8 milhões de litros de agrotóxicos em 2011

Vigilância Sanitária

Dados do último monitoramento do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, relativos a 2011 e 2012, podem ser servidos à mesa para uma boa discussão reunindo naturalistas, nutricionistas, agricultores e gestores governamentais.

O dado disponibilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta que  36% das amostras de 2011 e 29% de 2012 tiveram altos índices de alimentos com resíduos irregulares ou além do máximo permitido por alimento no Brasil (veja quadro).

Os indicadores já suscitam debates recheados de controvérsia pelos cantos do País. Para os empresários de agronegócios, o agrotóxico está para a agricultura como a comida para a fome. No mundo acadêmico, a Internet apresenta pelo sistema de busca teses contestando a necessidade dos defensivos para a produção em alta produtividade no campo.

Os dados da Anvisa alimentam indagações. Segundo as amostras, a carga de agrotóxico em produtos consumidos com a casa, como o pimentão (89%), apenas como exemplo, é muito acima do limite. Em outros, a escala e a importação associada ao percurso de longas distâncias, como a maçã, a saída do mercado tem sido manter volumes de pulverizações intensivos para garantir o produto para consumo na mesa do brasileiro.

O fato é que os chamados aditivos surgiram como uma alternativa no combate a pragas em lavouras, mas cuja lógica de prevenção em plantações acabou tendo o uso disseminado.

De acordo com a Anvisa, muitos agrotóxicos aplicados em alimentos agrícolas podem penetrar a polpa, o fruto de alimentos. Nessas condições, a lavagem em água corrente e até o demolhar (deixar o alimento in natura em solução de água sanitária ou vinagre por 20 minutos) não garantem eliminação completa dos “resíduos” presentes no interior de frutas, hortaliças e legumes. 

Por via das dúvidas, a prática deve ser combinada com a imersão de alimentos em uma colher de sopa do hipoclorito de sódio (a água sanitária) para cada litro d´água, pelos já ditos 20 minutos.

Alerta da Abrasco

Documento formulado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) mostra que o uso de agrotóxicos nas lavouras do País saltou de 599,5 milhões de litros em 2002 para 852,8 milhões de litros em 2011.

O consumo médio dos compostos químicos passou de 10,5 litros/hectare para 12,01 l/hectare entre 2002 e 2011. Segundo a Abrasco, o aumento do consumo está relacionado à diminuição dos preços e isenção dos impostos sobre os defensivos.

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