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Argentina e a embreagem

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

O primeiro movimento para enfrentar a piora da crise argentina foi feito na direção correta no início da semana, mas é óbvio que vai ser preciso uma desvalorização bem mais forte do peso para sair da encrenca em que sua economia se meteu. Ela está pagando o preço de um acúmulo de erros durante anos, o maior dos quais foi declarar um "default" e esperar que não haveria maiores consequências no longo prazo, porque, afinal, "o mundo esquece rapidamente".

Ficou provado o contrário: a Argentina não consegue nenhum auxílio externo, passou a viver por conta própria. Não por virtude, mas porque não tem acesso a qualquer modalidade de crédito no exterior. O novo ministro da Economia, Axel Kicillof, um bom profissional, mas cujas posições são muito discutidas lá por causa de suas inclinações marxistas mescladas com uma espécie de "keynesianismo" heterodoxo, está tendo que se virar sozinho para evitar o desastre.

A desvalorização cambial é o começo da solução e as consequências, visivelmente, virão logo a seguir: um dramático corte dos salários reais. E para que os efeitos da desvalorização não sejam anulados por uma elevação geral de preços será preciso uma política fiscal extremamente dura. Vai ter que reduzir a demanda interna e basicamente ela não pode ser feita pelo setor privado, senão a economia entra em recessão; por isso a demanda terá que ser reduzida por um corte nas despesas do governo ou por um aumento de impostos, o que levaria igualmente a uma recessão.

É importante entender que o ministro fez o movimento (a desvalorização do peso) na direção certa, mas infelizmente deixou transparecer que não existia um programa bem estruturado para enfrentar a situação, porque um dia depois deu uma meia-volta, restabelecendo impostos que tinha garantido não fazer, o que criou mais incertezas e mostrou às pessoas, que estão sofrendo as consequências (a queda do salário real) que não há uma direção segura.

Essa dose extra de incertezas vai para os preços, o que piora a agonia do governo: ele não pode se socorrer de uma política de juros para conter a inflação, já que não tem movimento de capitais. Significa que vai precisar endurecer ainda mais a política fiscal e ninguém sabe se o governo está preparado para levar isso às últimas consequências.

Apesar de algumas tentativas ? especialmente no exterior ? de misturar as condições das duas economias, hoje há uma clara consciência que Brasil e Argentina vivem situações distintas e dificilmente se arma alguma confusão a respeito. Temos que acompanhar com cuidado o que se passa em nosso vizinho porque a Argentina é um mercado muito importante para nossas exportações de manufaturados. Agora, devemos entender que o comércio mundial está indo numa direção e nós, com o Mercosul, em outra direção. Essa é a realidade: o Mercosul está desembreando os países que dele participam do resto do mundo...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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