Passava das onze horas da noite e eu precisava tomar uma decisão. Aproximava-me de uma encruzilhada e teria que fazer uma escolha ? Felizmente, bem mais simples do que muitas que surgem na vida da qualquer cidadão - virar à direita, percorrer cinquenta quilômetros, passando por Alvinlândia e Santa Teresa, até chegar em Garça, onde dormiria na casa da minha avó Clara, ou dobrar à esquerda, andar um quilômetro e pernoitar na cada do tio Chico (que tinha sobrenome de poeta: Francisco Gonçalves Dias). O sono, o cansaço e o bom-senso foram ótimos conselheiros e me fizeram tomar a decisão correta. Minutos depois eu estava na Fazenda Santa Catarina. Movido pelo hábito, caminhei em direção à porta da cozinha. Quando estava bem no meio do quintal, que era cercado por muro alto, tive uma surpresa desagradável: surgiu um enorme cão negro, com jeito de poucos amigos.
Aproximou-se e levantou as duas patas dianteiras. Num gesto instintivo de defesa, aparei-as com o braço esquerdo. Em pé, o animal tinha exatamente a minha altura ? era cabeça com cabeça. Pior ainda: cara a cara. Os seus olhos brilhavam muito, refletindo a luz da lua. Rosnando assustadoramente, ele mostrava os seus dentes brancos e pontiagudos.
Tudo era grande, inclusive o pavor que o seu tamanho e a sua aparência provocavam. Enfim, era uma cena digna dos melhores filmes de terror. Mas infelizmente aquilo não era um filme nem pesadelo. Era vida real. E eu não sabia qual seria o desfecho, Mas uma coisa era certa: eu levaria a pior. A situação era crítica quando, de repente, surgiu Brotinho, um pequeno cão da raça Fox, meu velho conhecido, pois nascera na minha casa, filho de uma cachorra chamada Bolinha. Quando ele se aproximou, soltei cuidadosamente a maleta de roupas que segurava com a mão direita e afaguei lhe a cabeça. Tudo isso sem tirar os olhos dos olhos do cão negro. Ai aconteceu o inimaginável: o cachorrinho me reconheceu e deu início à "operação salvamento". Obviamente, sem apelar para a força física. Mesmo porque, seria estraçalhado em trinta segundos. Ele tomava distância, vinha em desabalada carreira e se ativara, audaciosamente contra o corpanzil do meu inimigo. Depois de várias "trombadas", o gigante negro baixou as patas e caminhou, cabisbaixo em silêncio, para o local onde dormia. Sai na ponta dos pés ? não tive tempo nem de dizer muito obrigado ou meu benfeitor. Tranquei o portão do quintal e me sentei no gramado, com as pernas tremendo por causa da adrenalina. Foi o momento de maior pânico na minha vida. E, sem dúvida, o mais indesejável dos "tete-a-tetes".
Depois do banho, enquanto lanchava, o primo Valter me fez uma revelação estarrecedora: "Você teve a maior sorte ao vir pela frente. No quintal há uma fera negra que atacou cinco pessoas". Já na cama, antes de dormir, revi aquele filme de terror, do qual eu fora protagonista. No papel de vítima, evidentemente. E cheguei a uma conclusão óbvia: durante longos minutos ? que me pareceram séculos ? eu me tornei cinófobo, isto é, que tem pavor de cachorros. E nem era para menos. Entretanto, graças à valentia daquele animalzinho, eu me tornei novamente cinófilo, isto é, voltei a gostar de cachorros. Afinal, o que ele fez foi incrível. Seria humanamente impossível negar a inteligência daquele pequeno Fox!
O autor, Ismar Pereira, é colaborador de Opinião