Prestamos atenção aos grandes inimigos públicos, pois chocam a nação com os megaesquemas de corrupção que agravam as injustiças sociais e obrigam a uma voracidade tributária crescente, haja vista a necessidade de compensar não apenas o mau uso das verbas públicas, mas também o seu esvaimento pelas veias abertas da improbidade. Todavia, tanta improbidade, injustiça e furor arrecadatório são tolerados pela massa esclarecida porque, infelizmente, muitos dos que podiam aumentar o coro dos insatisfeitos e pressionar por mudanças preferem se servir da desordem, praticando as improbidades comezinhas do cotidiano, safando o próprio couro com alguma sonegação ou fraude previdenciária, de modo que a canga posta sobre os ombros da coletividade lhes parece mais leve e fácil de suportar, gerando o seguinte pensamento: "Sim, há injusta, mas se, ainda que de modo ilícito, consigo dar um jeito de aliviar meu fardo, que se danem os demais".
Falo de empresários que sonegam IR com esquemas tão antigos quanto o próprio tributo (notas frias, falsificação material ou ideológica de documentos etc); servidores públicos que declaram dependentes econômicos falsos para obterem isenções fiscais indevidas e vantagens previdenciárias a que não fazem jus; gente que declara dependentes em dois ou mais órgãos para dobrarem o recebimento das vantagens indevidas; pequenas licitações que, apesar de não chamarem atenção, enriquecem desonestos que pagam e recebem propinas; enfim, todo tipo de desonestidades de pequena monta individual, mas que, juntas, são um golpe duro no contribuinte honesto.
Esses "cidadãos" se calam ante a injustiça, pois não sentem plenamente a carga tributária que fere a coletividade no intuito de compensar as milhares de lesões que eles causam. Assim, preferem se valer da ilicitude e driblar o sistema injusto que alimentam com as fraudes e o silêncio covarde de que se servem. É muito egoísmo.
Há, no entanto, a promessa de um horizonte. A Receita Federal anuncia a chegada de dois poderosos predadores: um supercomputador desenvolvido nos EEUU, o T-Rex, que funcionará com um mega software, o Harpia, desenvolvido pelo ITA em conjunto com a Unicamp. Essas feras cruzarão dados de múltiplas fontes, com uma velocidade, eficiência e abrangência "nunca vista antes na história desse país". Vai ser um show! Todos esses que se calam sentirão enfim a necessidade de falar para mudar o atual sistema tributário hipertrofiado, pois suas pequenas improbidades serão descobertas e, segundo esperamos, punidas. Doravante, suas cangas terão o mesmo peso das nossas, que não nos servimos da covardia ilícita e tentamos corrigir os erros pelos meios legítimos.
Tudo isso me traz à lembrança a independência dos EEUU, que foi precipitada pela sede arrecadatória do parlamento inglês contra sua colônia na América. Acho que essas feras da Receita Federal, que de início tentarão nos engolir, terminarão por nos unir em uma nova força de reação, e, quem sabe, criarão um vínculo de solidariedade que não soubemos formar espontaneamente, já que estávamos divididos em dois times. Às vezes, precisamos de monstros que tentem nos devorar para lembrarmos que estamos do mesmo lado, e que, como disse o sociólogo Durkeim, "a falta de solidariedade é o principal mal da sociedade".
Que venham os monstros e que nos tragam a força da união que precisamos para nos libertar, não com as fraudes medíocres dos desonestos e covardes, mas com o bom combate da razão.
O autor, Luciano Olavo da Silva, é analista judiciário, especialista em Direito Eleitoral.