A arte bauruense perdeu, ontem, um de seus principais nomes. Morreu o ex-presidente da Academia Bauruense de Letras (ABL), ex-ator e escritor Munir Zalaf, aos 87 anos, devido a complicações decorrentes de um linfoma medular. Com a saúde fragilizada, ele foi acometido por uma pneumonia e faleceu às 6h15 no Hospital da Unimed, onde estava internado há um mês.
Além de ter trabalhado como ator junto à companhia da atriz e diretora Bibi Ferreira, Munir teve uma trajetória de destaque como autodidata na literatura. Escreveu cinco livros, mesmo tendo estudado apenas até “o quarto ano de grupo”, como gostava de destacar nas entrevistas que concedia.
Nascido em Mogi Mirim, o literato mudou-se ainda garoto para a cidade de Piratininga. Trabalhava em uma fábrica de refrigerantes quando descobriu o mundo das artes, ao assistir ao monólogo “As Mãos de Eurídice”, em uma apresentação em Bauru.
Começou a atuar interpretando a mesma peça e, numa encenação no Teatro Municipal de Campinas, foi descoberto pela atriz e diretora Bibi Ferreira. Aos 26 anos, foi morar no Rio de Janeiro e trabalhou como ator da equipe em diversas peças.
“Mas ele já tinha conhecido e se apaixonado pela minha mãe, que estava em Piratininga”, conta o filho Munir Zalaf Filho. Quando soube que Zuleica poderia se casar com outro homem, Munir rescindiu o contrato com a companhia da Bibi e, mesmo fazendo sucesso na capital fluminense, decidiu voltar para o Estado de São Paulo.
O escritor casou-se com Zuleica, com quem teve os filhos Munir e Mariú. Depois que a esposa faleceu, há 17 anos, chegou a conviver com Ana Murça, 35 anos mais nova, mas o relacionamento acabou algum tempo depois.
Obra
Quando deixou o Rio de Janeiro, Munir trabalhou no setor administrativo da Votorantim, na Capital, mas retornou pouco tempo depois para Piratininga. Ficou por cerca de 20 anos na Tilibra e, aos 65 anos, já aposentado, foi contratado pela Plasútil.
“Ele parou de trabalhar na década de 1990, quando passou a se dedicar integralmente à literatura. Ao longo da vida, ele escreveu dezenas de poemas, crônicas e artigos, além dos livros”, enumera o filho. Munir tornou-se membro da ABL em 1997 e permaneceu na presidência da academia de 2001 a 2012. Durante este período, o escritor também ministrou palestras para crianças e até mesmo dentro de presídios, onde declamava poemas para estimular o hábito da leitura.
Ao todo, ele escreveu cinco livros: “Fantasmas e Fantasias”, de poesias e crônicas; “Soluços na minha Rua”, onde conta suas experiências a partir dos 75 anos de idade; “Lá fora”, que trata da esperança; “Os Cinco Sóis”, sobre sua experiência pessoal de quase morte; e “Retratos do Tempo - Os Caminhos que meu Pai me Deixou”, sobre a relação entre pais e filhos. Em 2014, o Grupo Expressão Poética deverá lançar o livro “Bauru de todos os Tempos”, que incluirá um dos inúmeros poemas escritos por Munir.
O literato deixa dois filhos, Munir, 55 anos, e Mariú, 51 anos, além dos netos Bianca, 22 anos, e Lucas, 18 anos. O corpo foi velado no Centro Velatório Terra Branca, em Bauru, e sepultado às 18h de ontem, em Piratininga.
“Ele tinha uma grandeza que era toda dele. Como ele fazia questão de dizer, só terminou o quarto ano do grupo escolar e foi autodidata, se tornou um grande artista. É algo muito difícil de explicar” - Isolina Bresolin Vianna, escritora, professora e membro da ABL
“Fui criado como se fosse da família, porque sou muito amigo do filho dele. Ele sempre foi companheiro, conselheiro da garotada que cresceu perto da casa dele. O Munir era um sábio que nos ensinou muito, um exemplo de vida para todos nós” - Reynaldo Aluar Farha, comerciante e amigo da família
“Ele foi meu melhor amigo, companheiro de toda a vida, o melhor pai do mundo. Nada do que eu disser vai conseguir resumir o caráter, a dignidade e a honestidade que o meu pai tinha. Eu costumo brincar que o único defeito que ele tinha era o nariz de turco. Ele foi um homem extraordinário” - Mariú Senis Zalaf, filha
“No final do ano passado, o Munir já estava doente e fomos com um grupo grande fazer uma visita na casa dele. Foi uma festa. Ele estava na cama, debilitado, mas ria muito. Esse bom astral fez com que ele fosse uma pessoa muito querida em qualquer lugar que fosse” - Madê Corrêa, atriz e diretora de teatro, membro da ABL
“A ABL representou, para o Munir, uma extensão da vida teatral que ele teve. Foi presidente por cinco gestões seguidas e se dedicava muito à entidade. Ele foi uma alma gêmea na arte literária, porque trocávamos muitas ideias. Hoje, sinto a perda de um irmão” - Joaquim Simões Filho, presidente da ABL
“Sentimos a perda de uma peça fundamental da ABL. Ele tinha um talento poético e de oratória admiráveis, raros hoje em dia. Também era muito dedicado à entidade. Sabemos que ele estava muito doente, mas estamos em estado de lamentação por sua passagem” - Nilson Costa, ex-prefeito e ex-presidente da ABL