Éder Azevedo |
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Silmara Costa e a filha Vitória, que passou por consulta médica pela última vez em 2006 |
Vitória Caroline Costa Souza tem 12 anos e uma história de vida que remete ao seu primeiro nome. Desde o nascimento, ela luta para tentar reverter uma malformação que deixou seus pés tortos.
Ao todo foram seis cirurgias, segundo a mãe, a faxineira Silmara da Costa, de 38 anos, todas realizadas no Hospital Estadual (HE).
Na última, entretanto, realizada em dezembro de 2005, a menina, que já caminhava com dificuldade, acabou ainda mais debilitada e necessitando do uso continuo de cadeira de rodas.
Daí para frente teve início o período elencado como o mais difícil para a família Costa. Suspeitando de suposto erro médico, a mãe retornou ao hospital com a expectativa de novas consultas para outra tentativa cirúrgica. A espera na fila pelo atendimento do ortopedista, entretanto, segundo Silmara, já dura oito anos.
“Eu ligava sempre no Estadual e estive lá pela última vez em fevereiro de 2008, quando levei o terceiro encaminhamento pelo posto de saúde. Elas disseram que a fila era grande mesmo e que era para eu continuar esperando. Depois disso eu até abandonei e até hoje ninguém me ligou”, conta Silmara.
“A última consulta que ela teve foi em 2006. Há oito anos, e o médico disse que teria que estudar melhor o caso dela”, completa.
Drama e furto
Depois da última cirurgia, em 2005, a mãe ressalta a piora no quadro da deformidade.
“Ela andava com dificuldade, mas hoje depende de nós para tudo. Vive com ferimentos e, nas urgências, acaba se arrastando pela casa. Dói muito ver um filho nessa situação. Ela já está mocinha e têm vergonha dos pés, vive de meias”, lamenta a mulher que, apesar disso, nunca questionou o hospital sobre a suspeita de erro.
A menina mora com a mãe, o pai e o irmão de 13 anos em um condomínio de prédios do programa Minha Casa Minha Vida no Bauru 16. Por ser apartamento, o local dificulta ainda mais o acesso da garota ao mundo fora de casa.
A família se mudou para o local há cerca de um ano. Antes, porém, quando moravam em uma residência no Jardim Bela Vista, Vitória teve sua cadeira de rodas furtada em plena área da casa. “Aconteceu durante um temporal e não temos condições de comprar outra. Quando ela não está com tanta dor, até anda apoiando em nós”, frisa Silmara.
Ausência
Em resposta ao JC, o Hospital Estadual de Bauru informou que a paciente em questão é acompanhada pela unidade desde 2003 e que ela não teria comparecido em uma consulta agendada para novembro de 2008.
“Desde essa época, a paciente não procurou mais a unidade para agendar nova data de consulta para continuidade do acompanhamento médico. Também não há registro de qualquer avaliação realizada no Ambulatório Médico de Especialidades (AME). Vale ressaltar que, desde o início de seu tratamento no hospital, em 2003, a paciente faltou a 15 consultas no total, entre os ambulatórios de ortopedia, raios-X, anestesista e retorno pós-operatório”, rebate o hospital, por meio de nota.
O Hospital Estadual ressaltou ainda que entrará em contato com familiares responsáveis pela paciente para agendar uma nova avaliação na unidade. A consulta deve ser agendada para a próxima terça-feira.
Laudo defasado
O problema, contudo, vai além, conforme a mãe. O último laudo médico que atesta a deficiência da menina emitido pelo HE possuiria data anterior à última cirurgia, fato que gerou ainda mais dor de cabeça a Silmara, que afirma ter parado de trabalhar para ficar com a filha na escola.
“A diretora disse que, se eu tivesse um laudo mais atual em mãos, conseguiria até um cuidador para ficar com ela na sala de aula, mas, como não temos, eu a acompanho todo dia, é 24 horas cuidando. Até porque nos mudamos agora e a escola é nova”, completa.
Outra situação gerada pelo mesmo problema veio à tona nesta semana. “A diretora disse que o benefício do ônibus, que nos pega na porta de casa para a escola, seria suspenso ontem (anteontem) por conta da falta do laudo”.
Cansada de esperar pelo atendimento, Silmara procurou ontem a Defensoria Pública, na tentativa de obter uma medida judicial que garanta o atendimento da menina.
