Economia & Negócios

The End

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Quioshi Goto

Insustentável: Luis Milanez colocou 22 mil filmes da Vídeo Imagem à venda

Os preços das locações diárias ainda estão colados em pequenas folhas pelas prateleiras. Como sempre foi, o lançamento é mais caro que o catálogo. A novidade são outros cartazes informando que todos os 22 mil filmes estão à venda. Após quase 30 anos, a Vídeo Imagem, uma das locadoras mais tradicionais, fechará sua última loja, na Getúlio Vargas, em Bauru.

Sentado em uma cadeira igual àquelas usadas por diretores de cinema, Luis Milanez, 54 anos, topa falar com o JC sobre a trajetória do seu negócio. Aos poucos, a conversa vira um verdadeiro desabafo. A voz embargada e os olhos marejados deixam claro que ele não estava preparado para decretar o fim.

Luis dedicou mais de metade de sua vida para a locadora, que nasceu em 5 de dezembro de 1984 após uma conversa de amigos (leia mais abaixo). Eram ele e outros três sócios. Em 1990, os amigos desistiram e Luis já tocava o negócio sozinho.

“Houve vários períodos de crise, mas não como agora. Ficou insustentável”, relata o proprietário. “Quando começou a TV a cabo, o foco eram filmes e isso nos balançou um pouco. Mas nada como agora”, repete.

O “agora” que Luis tanto fala é uma conjunção de fatores. O grande vilão da derrocada da Vídeo Imagem é a imensa pirataria. “É o pior de tudo. Já teve camelô que veio vender filme pirata aqui na frente”, conta, indignado.

Nesse sentido, a evolução da Internet contribuiu muito. “Hoje, as pessoas baixam os filmes quando querem”. A falta de movimento piorou também com as grandes salas de cinema que se instalaram na cidade.

Em cerca de uma hora e meia de conversa na locadora, em plena tarde de sexta-feira, apenas dois clientes entraram para alugar algum título.

Aos poucos, a tradicional loja foi sendo golpeada ao estilo Rocky Balboa. O movimento fraco foi o ataque mais forte. Porém, ações trabalhistas de meia dúzia dos 500 funcionários que passaram por ali e muita inadimplência ajudaram a elevar as dívidas. “Há seis meses, eu percebi que não dava mais”.

No auge, a Vídeo Imagem chegou a ter cinco lojas em Bauru. E nem faz tanto tempo assim. Foi em 2002. Além da Getúlio Vargas, havia outras na Duque de Caxias, Nações Unidas, Bela Vista e Vila Falcão.

“Uma a uma foi fechando”, conta Luis. O “último dos moicanos”, na Getúlio Vargas, ainda está com as portas abertas. Em contagem regressiva. Talvez só por mais 30 dias. Os vídeos continuam sendo retirados normalmente. Alguns não retornam. As locações de DVDs e Blu-rays dividem espaço com as vendas dos títulos.

E as locações e as vendas dividem espaço também com uma série de outros produtos. Na tentativa de sobreviver, o estabelecimento passou a vender balas, chocolates, sorvetes e produtos de informática. “Até vinho eu vendo aqui”, conta Luis Milanez.

Antes de subirem os créditos finais, a última pergunta: do que o senhor mais vai sentir falta? “De surpreender o meu cliente. De indicar um filme e ele voltar dizendo que adorou. É disso que eu mais vou sentir falta”, finaliza.


Lula, o Filho do Brasil

Luis Milanez é xará do ex-presidente Luiz Inácio da Silva. Porém, a proximidade para no nome. O proprietário afirma que Lula é um dos grandes responsáveis pela pirataria que culminou com o fechamento das portas da Vídeo Imagem. “Ele assistiu a um filme pirata em seu avião. Quer um ato mais simbólico que isso?”, questiona.

O episódio ocorreu em 2005, quando o ex-presidente assistiu a uma cópia pirata do filme “Dois Filhos de Francisco” durante uma viagem em seu avião.


Segundas Intenções

Eles ficam em uma salinha especial. Antes, estavam sempre meio escondidinhos nos fundos da locadora. O aviso “Só para maiores” na entrada deixa claro quais os filmes estão naquele local. Chamados eufemisticamente de “adultos”, os títulos pornográficos foram febre por volta de 2004.

“Isso é algo engraçado. Para você ter uma ideia, tinha gente que tinha dois cadastros aqui. Um para alugar filmes comuns e o outro para pegar os pornográficos”, revela Luis Milanez, complementando que alguns tinham tanta vergonha que pediam os filmes por telefone. “Até isso a Internet conseguiu acabar”. 


Como começou o negócio em extinção

Videocassete. Um aparelho caro há algumas décadas. Hoje, as gerações mais novas nem fazem mais ideia do que é rebobinar um VHS. Assim como foi com o equipamento há anos, é a locadora Vídeo Imagem quem está perto da extinção agora. Mas como esse sonho começou?

“Eu era bancário e queria uma renda extra. Então, em conversa com uns amigos, resolvemos abrir a locadora. Éramos quatro naquela época”, relembra Luis Milanez.

No dia 5 de dezembro de 1984, estava lá. Finalmente a locadora foi aberta na rua Saint Martin. Com um acervo de apenas 100 títulos, já nasceu com o nome que carrega até hoje. Havia apenas mais uma concorrente. Ela também já fechou suas portas.

Tudo era diferente. Até a forma de expor os produtos era totalmente arcaica. “Essas prateleiras não existiam. Sabe aqueles cartões de ponto? Era mais ou menos assim. A ficha era em espécie de “T”. Em cima ficava o nome do filme. Quando a pessoa puxava, lia a sinopse, que era datilografada uma a uma”, recorda.

Naquela época, o original do filme vinha de fora. No Brasil, todas eram cópias de lá. “Quando tínhamos dois anos de locadora, chegaram os filmes originais na Capital. Fomos lá e compramos todo o acervo deles. Foi nosso grande salto de qualidade”.

Em 1990, saiu o último sócio de Luis. Hoje, 24 anos depois, é Luis quem percebe que “não dá mais”. Se ele estivesse no filme “De Volta Para o Futuro”, será que faria tudo de novo? “Sim. Não me arrependo de nada. Cada detalhe aqui fui eu que pensei. Até agora, eu ainda tenho esperança de arrumar uma ‘portinha’ com aluguel barato e manter a locadora lá”, sonha o proprietário, com otimismo.


Clientes lamentam o fechamento

Um terço de Bauru é ou já foi cliente da Vídeo Imagem. O cadastro atualmente conta com 120 mil nomes. O fechamento da loja representa o fim de uma era a muitos deles. “Fiquei muito triste com a notícia”, disse a dentista Mariana Salgado, 38 anos, ao levar as filhas Valentina, 3, e Isadora, 5, ao local e saber do fechamento.

As crianças, por sinal, parecem estar em um parque de diversões com tantos filmes infantis à venda. Se é um parque para elas, para outros é quase um templo. “É um verdadeiro ritual ir para a locadora. Ir lá e olhar capinha por capinha. É fantástico”, conta Paulo Tonon, 35 anos.

Cinéfilo por conta do pai, ele já chegou a trabalhar na Vídeo Imagem por anos. “Assisto um filme por dia. Na época que trabalhei lá, atendia muito bem os clientes. Eles gostavam porque eu assistia todos os filmes, mesmo que fossem bons ou não. E eu fazia boas indicações”, recorda.

A lembrança que ele vai mais levar da locadora nem é do seu filme favorito. Mas do mais barulhento com tiros e explosões. “Eu adorava colocar ‘O Resgate do Soldado Ryan’ para passar na locadora. É uma lembrança boa que vou sempre guardar comigo”.

De cliente para se tornar funcionário. O mesmo ocorreu com Valdir Maurício, 58 anos. Enquanto a reportagem conversava com o proprietário, ele dava baixa nos filmes que já foram vendidos. Desde que foi anunciada a queima de estoque, as vendas, por sinal, superaram as locações. Para Valdir, a comissão com elas é maior, mas não tem como comemorar. “É triste”.

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