Tribuna do Leitor

Diário de uma onça


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Transcrevo os últimos relatos registrados no diário da onça parda encontrada no Parque Vitória Régia, e sua saga pela cidade de Bauru. O diário da felina foi encontrado próximo da árvore que lhe serviu de proteção, antes de ser capturada pelos bombeiros e funcionários do Zoológico. Registrou assim a onça: "Acordei hoje bem cedo, assustada com um barulho forte que vinha de longe. Pensei que fosse trovão, pois durante a noite choveu bastante, mas na verdade sentia o chão tremer pela queda de muitas árvores, e ouvia o desespero nos gritos dos passarinhos que se misturavam com o roncar da motosserra. Senti que era hora de procurar outras bandas, afinal, já tinha dois dias que eu não comia, e este barulho certamente tinha espantado minhas presas.

Mas ir pra onde, se a cada dia que acordo vejo minha casa aos poucos desaparecer. Tento caminhar nos lugares onde minha mãe me levava, e não encontro mais um pé de árvore. As matas deram lugar as pastagens e as plantações dos humanos, grande parte dos bichos fugiram, e outros tantos morreram queimados pelo fogo das queimadas que esquentam a terra, e acabam com o ar que respiramos. A água do riacho onde eu costumava brincar com meu irmão está tão suja, que só posso matar minha sede bebendo água da chuva que empoça entre as folhagens. Hoje, lembrei dele, meu irmão morreu na última lua cheia atropelado na estrada, por aquelas máquinas dos humanos que correm mais que a minha prima, a onça pintada. O cara que passou por cima dele nem olhou pra trás, e meu irmão ficou ali, até morrer antes do último pio da coruja.

Hoje só de raiva resolvi dar umas voltas pelas terras dos humanos, já que eles entram na minha casa sem pedir licença, vim aqui para ocupar o espaço que me roubaram. Comecei minha caminhada pelos córregos da cidade. Achei que por ali estava segura, mas precisei tomar cuidado, pois, por incrível que pareça, os humanos também emporcalham suas terras e as águas que passam por suas casas. Tem tanto lixo, entulho e esgoto que fiquei até com medo de me envenenar. Que falta de respeito é essa com as coisas da natureza! Nós animais que vivemos nesta terra por muito mais tempo, aprendemos desde pequeno que é preciso proteger a nossa casa, pois este mundo foi apenas nos emprestado pelos nossos filhos que ainda nem nasceram.

Perambulei por um monte de ruas, corri por praças, pisei em chão tão quente e quase não vi árvores para me refrescar. Quando encontrei algumas, já era sol poente, resolvi então subir em uma delas, para fugir de um punhado de gente que me olhava com espanto. Será que estão bravos porque estou na terra deles? Ou estão com medo da fera que eu representava? Dei uma rugida bem forte pra mostrar minha braveza, mas que nada, foi juntando gente, e mais gente, que agora fiquei com medo. Me segurei com força nos galhos mais altos pra ver se enxergava no horizonte uma forma de escapar. Mas quem dera, as garras dos humanos são mais afiadas que as minhas, só me resta pedir desculpas por invadir a terra deles, quem sabe assim me deixam ir! Mas vou pra onde, se não tenho mais casa, se estou com sede, e com essa fome que me mata! Acho que vou me entregar! O que me restou desta vida? Um punhadinho de terra e a caridade daqueles que ouço lá embaixo me chamar de coitadinha.

Mas aí não serei a onça, a rainha das matas, temida e respeitada pelos humanos quando ainda andavam sem roupa. Na verdade, nem sei mais quem sou, se a dona ou a invasora! Agora tenho que aguentar estas abelhas me picando. Levei uma, duas... quatro picadas, e o sono parece que veio junto, eita agulha venenosa. Vou sonhar com a minha casa, mas se eu morrer, quero que alguém encontre o meu diário, que contem a minha história, pois nós os animais também temos o direito de compartilhar a vida nesta terra, só precisamos de um pouco de proteção e respeito! Agora tenho que dormir ou morrer..." Assim a felina encerra seu diário.

O único final feliz desta história é que a onça foi resgatada com vida e segue vivendo o seu destino nas oportunidades que os humanos lhe deram.

Clodoaldo Armando Gazzetta é biólogo e ambientalista

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