As imagens correm o mundo. Um jovem de 15 anos, negro, órfão, morador de rua, amarrado nu a um poste, no Aterro do Flamengo. A humanidade se reinventa todos os dias ou repete a dramaturgia sádica dos tempos em que se chicoteava escravo fugido, nos pelourinhos do Brasil Colonial. Uma apresentadora do jornal do SBT, escalada para dar opiniões medievais, disse que a atitude dos torturadores era "compreensível"; que o jovem negro era um "bandidinho". A jornalista ainda recomenda aos defensores dos direitos humanos a "adotar um bandido". Os jornais de ontem trazem a notícia envolvendo o mesmo menor em dois diferentes assaltos a turistas estrangeiros, nas praias do Rio.
O garoto infrator tinha sido "adotado" pela artista plástica Yvonne Bezerra de Mello. Ela dirige uma ong que oferece educação e aprendizagem para menores vítimas de violência. Esta senhora ficou famosa por pegar no colo e levar para casa, uma a uma das crianças sobreviventes da chamada Chacina da Candelária. Em 1993, policiais militares mataram oito jovens negros que costumavam dormir nas escadarias da igreja. Hoje, no local, existe uma cruz de madeira quase caindo, com o nome das vítimas. Anos depois, já adulto, Sandro, um dos garotos sobreviventes sequestrou o famoso ônibus 174. Passageiros foram feitos reféns. "Chama a Tia Yvonne", apelava. Uma passageira morreu no resgate desastrado. Sandro, preso vivo, chegou morto à delegacia.
"Falência da tutela do Estado", que deve garantir a ordem social e não o faz. Cansado de tanta impunidade o povo resolve se autotutelar - até os policiais -, movido pelo sentimento coletivo de injustiça e insegurança. As cenas do negro acorrentado fizeram sucesso na rede mundial. Repetiu-se em sequência o mesmo ânimo em vários estados. No Piauí, outro ladrão, também "de menor" foi espancado e amarrado em cima de um formigueiro. Lembra a história do Negrinho do Pastoreio, mito gaúcho do século 19 recontado por Clarice Lispector em "Como nasceram as estrelas". O escravo negro, castigado pelo feitor foi posto em cima de um formigueiro e salvo por Nossa Senhora. Desta vez a santinha não apareceu. Outro acorrentado por ter roubado o fogo dos deuses chama-se Prometeu. Segundo a mitologia grega explorada no teatro de Ésquilo (séc.V, a.C), seu suplício consistia em ter o fígado beliscado todos os dias por uma águia, durante 30 mil anos. Percebemos que a vingança é característica dos deuses e dos mortais. Para tentar conter a sede de justiça pelas próprias mãos e temendo o caos nas relações interpessoais, Rousseau desenvolveu o contrato social pelo qual a sociedade civil delega poderes ao Estado para a realização da justiça.
A partir do momento em que a coletividade que presencia o crime cometido percebe a ausência de proteção legítima, começam as práticas de atos de violência ilegítimos, para que haja a devida punição ao infrator. A expressão "linchamento" vem do nome de um coronel durante a Guerra da Independência (1780), nos Estados Unidos. Para impor a ordem na anomia, como os sociólogos chamam a ausência de leis, criou a sua própria, a Lei de Linch. Passados 230 anos ainda perdura. Até os anos 1960 a Klu Klux Klan fez muito uso dessa vindita primitiva. Mais de cinco mil negros foram linchados e menos de 1% dos promotores dessas chacinas responderam presos. As autoridades consideravam que era um expurgo social de cunho racista, e davam proteção aos executores. Agora, fala-se em "linchamento midiático". Mandar políticos para a cadeia é coisa tão rara que, a quebra da rotina da impunidade merece manchetes na imprensa e exposições demoradas na televisão.
Tudo reflete o grau de autoritarismo presente na sociedade. De cada quatro cidadãos, um é favorável a que se restabeleça desta forma a ordem perdida (DataFolha). Aqui em Bauru, dezenas de menores se reúnem à noite na Praça Ruy Barbosa, fumam crack e saem doidinhos para o "serviço" nas lojas do Calçadão. Penetram pelo telhado, arrombam forros. Preferem joalherias, operadoras de celulares, farmácias e lojas de roupas de grife. Foram identificados pelas câmeras de segurança. Passam-se alguns dias e estão eles de volta à velha e maltratada praça.
Negros torturados e agrilhoados em postes; formadores de opinião comemorando; parcelas da opinião pública favoráveis; imobilismo e incompetência na segurança pública. No processo civilizatório isso tem nome: decadência.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC