As redes sociais parecem ser a última fronteira da batalha do governo venezuelano contra os meios de comunicação independentes. Depois de expropriar TVs e afogar economicamente os principais jornais (há mais de 20 sob ameaça de fechamento por falta de dólares para importar insumos), o governo, por meio do provedor CANTV, adotou a estratégia de derrubar temporariamente as páginas do Facebook e do Twitter, além de aplicativos de trocas de mensagens.
O presidente Nicolás Maduro já demonstrou que o assunto é prioridade ao instituir, em janeiro, o vice-ministério de Redes Sociais, subordinado ao Ministério da Comunicação e Informação.
“Estamos driblando o problema nos conectando a provedores de fora da Venezuela”, disse o estudante de informática Jorge (ele não quis revelar o sobrenome), 20 anos, presente nas recentes manifestações antichavistas em Caracas.
“Há várias formas de burlar esses bloqueios, e, se derrubam um aplicativo, amanhã outros dez aparecerão. É uma batalha perdida para eles se quiserem realmente combater vozes opositoras por essa via”, acrescentou.
As redes sociais são o principal meio de divulgação e comunicação dos participantes das marchas contra o governo de Nicolás Maduro, que começaram há duas semanas e já deixaram oito mortos.
O mais novo alvo do assédio do governo é o aplicativo Zello, muito popular na Venezuela. Trata-se de uma espécie de “walkie talkie”, específico para smartphones, que permite enviar uma mensagem de voz a uma pessoa ou a um grupo de pessoas.
Maduro acusa
Em discurso a centenas de seus apoiadores em frente ao Palácio de Miraflores, o presidente venezuelano Nicolás Maduro acusou os manifestantes que protestam há quase três semanas no país de terem causado a 11.ª vítima dos protestos, um jovem de San Cristóbal. “Não queriam deixar que ele passasse por uma dessas barricadas. Ele fez de tudo para passar e quando passou veio alguém e o apunhalou”, disse Maduro. Segundo ele, o autor teria sido um “senhor humilhado” pelos manifestantes, o que em sua contabilidade resultava em duas vítimas dos opositores. No Twitter, porém, o prefeito Daniel Ceballos, opositor de Maduro, disse que a morte foi resultado de um assalto.
Presidente teria desistido de expulsar CNN, diz emissora
A rede de TV americana CNN informou que o governo da Venezuela voltou atrás na revogação dos vistos de trabalho aos jornalistas que estavam no país para cobrir os protestos contra e a favor do governo. Ainda assim, Maduro teria pedido mudança na abordagem da emissora.
A correspondente da rede em Caracas, Osmary Henández, informou, na sua conta do Twitter, que o governo havia autorizado novamente o trabalho de todos os sete jornalistas que haviam sido expulsos do país.
Na quinta-feira, o governo do presidente Nicolas Maduro havia comunicado que os profissionais deveriam deixar a Venezuela e acusou a rede de incitar uma guerra civil no país.
O governo teria voltado atrás na sexta-feira à noite, segundo Hernández, após uma entrevista coletiva de Maduro a jornalistas estrangeiros. O presidente afirmou, nessa entrevista, que gostaria de dialogar com o presidente americano Barack Obama sobre a situação da Venezuela.
Em reportagem publicada pela CNN, Maduro teria dito que a rede trabalha para o departamento de Estado dos EUA, que está usando a TV para fomentar a guerra entre os venezuelanos e sugerir uma intervenção internacional no país.
A CNN noticiou ainda que Maduro pediu à rede que retificasse sua abordagem jornalística. “Eu sei que eles querem ficar na Venezuela. Façam isso, cubram a Venezuela. Mas de uma maneira balanceada, baseada no respeito às leis venezuelanas. Quem não respeita as leis não terá sinal na Venezuela”, disse Maduro, segundo a CNN.
Em comunicado, a rede americana havia afirmado que “vem reportando os dois lados da tensa situação venezuelana, mesmo com o acesso limitado às autoridades do governo”.