Cultura

Um gênio se cala


| Tempo de leitura: 3 min

O violonista espanhol Paco de Lucía, uma das referências do flamenco em nível mundial, morreu na madrugada desta quarta-feira no México, aos 66 anos, em decorrência de um ataque cardíaco. O artista, que segundo amigos passava férias com a família no México, é considerado um dos grandes violonistas do mundo e um renovador do flamenco, embora também tenha feito incursões por outros gêneros musicais. O corpo do músico seria levado ontem para Algeciras, sua cidade natal, na província de Cádiz, no sul da Espanha, onde será velado e sepultado. A cidade decretou três dias de luto.

Paco de Lucía, cujo nome real era Francisco Sánchez Gómez, é autor de uma ampla discografia em que se destaca “Fuente y Caudal”, de 1973, “Entre Dos Aguas” (1981) - nome também de uma das suas músicas mais conhecidas - e “Almoraima”. “(Estamos) muito entristecidos pelo falecimento do grande mestre Paco de Lucía. O flamenco perde uma referência, um mago, um inovador”, disse a Sociedade Geral de Autores da Espanha em sua conta do Twitter.

Ao longo da sua trajetória, o músico recebeu numerosos reconhecimentos, como o Prêmio Nacional de Violão de Arte Flamenca, o Príncipe do Astúrias das Artes (2004) e a Medalha de Ouro ao Mérito nas Belas Artes (1992). Foi nomeado doutor “honoris causa” pela Universidade de Cádiz e pelo Berklee College of Music.

Ele começou a trabalhar ainda adolescente em uma companhia de dança, fazendo acompanhamento com seu violão. Depois de conhecer Camarón de la Isla, seu artista mais admirado, começou a colaborar com ele e a participar de turnês. No começo dos anos 1970, já havia forjado um estilo pessoal e inovador, que fez dele uma figura mundial da música flamenca e do violão em geral.

“Foi embora o melhor violão dos séculos 20 e 21. Paco foi o grande músico por antonomásia, toda a sua vida lutou pelo flamenco”, disse o cantor de flamenco José Mercé em declarações à rádio Cadena SER.  Nas décadas de 1970 e 1980, tocou com o pianista de jazz Chick Corea e com o violonista de fusion Al Di Meola, entre outros.

TRANSFORMAÇÃO

Paco de Lucía, a partir dos anos 1960, revolucionou o flamenco, até então “uma música de museu”, como dizia. Introduziu no estilo novas influências, como jazz, bossa nova, blues, salsa e pop. Apreciador da música brasileira, gravou com Djavan uma versão de “Oceano”. “Djavan é dos maiores com quem já toquei”, disse ao jornal O Estado de S.Paulo, lembrando o violão que havia colocado na gravação de Oceano, em 1989.

“Por que contar as coisas com dez palavras se você pode usar cem?”, disse na sua última entrevista à Folha de S.Paulo, em novembro, sobre a mistura de ritmos. “Abri uma porta para que entrasse ar, com muito respeito à tradição, mas não obediência, o que é muito diferente.”

Apesar da técnica apurada, Paco dizia não gostar de fazer exercícios tradicionais no violão. “Isso é muito chato, me deixa nervoso, me perturba”, contou à Folha. O espanhol, no entanto, era rigoroso: antes de shows, aquecia as mãos no instrumento durante duas horas.


Para espanhóis, ele foi ‘revolucionário’

Os integrantes do mundo flamenco amanheceram de luto, ontem, com a notícia da morte de Paco de Lucía. Pelo Facebook, cantores, bailaores e guitarristas manifestaram sua dor pela perda do músico idolatrado.

Para o bailaor Antonio Fernández Montoya, conhecido como El Farru, que participou da turnê que Paco de Lucía realizou pelo Brasil em novembro, o mundo perdeu um “gênio, um revolucionário, que levou o flamenco ao mundo inteiro”. “Ele foi um mestre para todos os músicos, um verdadeiro espelho. Para mim, que trabalhei e convivi com ele, é um dia dos mais tristes, pois o considerava um segundo pai. Não tenho palavras para expressar o que ele representou para o flamenco.”

Seu irmão, o também bailaor Juan Manuel Farruquito, disse que passou toda a manhã chorando a grande perda. “Era um grande maestro.”

Comentários

Comentários