Articulistas

O gosto pelo amargo

Walter Barduchi
| Tempo de leitura: 2 min

É, para muitos, algo intrigante o apreço que certas pessoas têm por exóticos alimentos como o jiló, o almeirão bravo, a jurubeba (esta muito usada na cachaça, como aperitivo), alimentos estes com um amargor que lembra o fel. No entanto, encontramos pessoas que se deliciam com estes sabores, tal qual uma abelha inebria-se com o mel. É este gostar que nos diferencia uns dos outros, o que para uns chega às raias do insuportável, para outros é motivo de deleite. Degustam como se não houvesse iguaria comparável na terra.

Tendo esta imagem em mente, podemos traçar um paralelo com semelhante situação em nossas vidas. Cada um de nós com suas peculiaridades, age de maneira única quando se depara diante de determinadas situações. À vezes nos pomos a questionar o que leva esta pessoa a ter preferências tão esdrúxulas? Como pode ter tamanho mau gosto? Isto tudo dentro da nossa arrogância de achar que as nossas preferências é que são as mais corretas. Somos sempre tentados a qualificar o que é "normal". O que não se enquadrar dentro dos nossos parâmetros, deve ser descartado. Provavelmente quem age desta maneira ou é louco, ou com certeza veio de outro planeta. "Onde já se viu alguém não gostar de futebol? Como pode não curtir o carnaval? Este sujeito nunca vai à praia, aqueles ali quase não saem de casa. Minha vizinha tem quarenta anos e ainda esta encalhada, a coitada!" Será que realmente está encalhada ou ela tem grande alegria em viver assim sem ninguém para lhe aporrinhar a paciência? As cidades praianas podem ser um verdadeiro paraíso para quem gosta, um local de relaxamento e contato com a natureza, para outros um inferno, com muito calor, água salgada e pegajosa, muitas filas para comprar tudo, etc.

Tudo bem, é verdade que há pessoas que realmente apreciam a morbidez, não perdem um velório, acham o tema doença um assunto apaixonante, são capazes de ficar horas inteiras discorrendo sobre a mais variada gama de desgraças e mazelas que acometeram a eles próprios, ou a alguém muito próximo, e percebe-se claramente uma expressão facial prazerosa, quase orgástica quando tocam nestes macabros assuntos. Mas, ainda assim, é o seu particular jeito de ser, se não gostamos, devemos sutilmente fazê-los perceber.

Sem dúvida, para muitos o amargo tem um sabor especial, mas não é também a doçura enjoativa quando em excesso? E o muito salgado é tão insuportável que nos impede de ingerir o alimento. Aprendamos, portanto, a temperar na sábia medida a nossa vida, pois ela torna-se muito mais rica quando há diversidade de sabores, sejam eles salgados, doces ou mesmos amargos, que muitas vezes, como sabiamente diziam nossos avós, é bom para o fígado.

O autor, Walter Barduchi, é colaborador de Opinião

Comentários

Comentários