João Rosan |
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Dom Caetano Ferrari abrirá a campanha na diocese neste domingo |
Tem quem pense que o tráfico humano seja um mal pouco comum, distante da rua de casa. Mas o crime tem dimensão bem próxima do cotidiano de muita gente. Ele inclui, por exemplo, a exploração do trabalho e a exploração sexual, além da extração de órgãos e adoção ilegal de crianças. Os delitos serão discutidos pelos católicos durante a Campanha da Fraternidade, cujo tema em 2014 é “Fraternidade e tráfico humano”.
Lançada oficialmente em Bauru neste domingo, dia 9, a reflexão iniciada durante a Quaresma estimulará os fiéis a denunciarem o problema quando se depararem com ele.
“O católico tem que exercer a dimensão profética, ou seja, fazer a denúncia das coisas erradas e o anúncio das coisas corretas. Não é fácil”, comenta dom Caetano Ferrari, bispo diocesano de Bauru, que celebrará a missa de domingo, às 10h, na Catedral do Divino Espírito Santo.
Muito provavelmente, em moradia degradante, reze sozinho o trabalhador vítima de aliciamento, que deixou a família na cidade de onde é natural, atraído para outra região por salário que depois não se confirma.
Trata-se do crime mais comum registrado na região de Bauru. Segundo o procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) Luís Henrique Rafael, quando começa a safra da cana (março e abril), do café e da laranja (maio e junho), semanalmente uma denúncia dessa natureza chega ao MPT.
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Malavolta Jr. |
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Denúncias chegam com mais frequência à região quando começa a época da colheita de várias culturas |
Promessas
Excluindo o período, as queixas são registradas, em média, uma vez ao mês. Em vários casos, as vítimas são trabalhadores da construção civil. Independentemente da área, na grande maioria das vezes, intermediadores de mão de obra, conhecidos popularmente por “gatos”, prometem salários que, na prática, são muito inferiores.
Em outra região do País ou Estado, os aliciados trabalham em jornada excessiva para tentar compensar o baixo rendimento. Ao final do expediente, são acolhidos em locais indignos, em situação análoga à escravidão.
Vários flagrantes foram feitos no ano passado, medida que reduziu a incidência dos casos. Segundo Rafael, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê que o migrante seja contratado no Estado de origem, se submeta ao exame médico admissional e tenha registro em carteira de trabalho.
A grande incidência de desrespeito à regra na região trouxe a Bauru, no ano passado, especialistas e autoridades que atuam no combate e prevenção do trabalho escravo no Brasil.
Eles participaram do simpósio nacional “A atuação articulada no combate ao trabalho escravo contemporâneo – perspectivas, consequências e desafios”. Na oportunidade, decidiram que, para combater a prática, o MPT atuará de forma proativa, a partir de um planejamento já elaborado, informa Luís Henrique Rafael.
O procurador representa o Estado de São Paulo na Coordenadoria de Combate às Fraudes Trabalhistas. Ele atuará conjuntamente com o colega José Fernando Ruiz Maturana, que atualmente é o procurador chefe em exercício da Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região, responsável por todo o Interior de São Paulo, e também representa os paulistas na Coordenadoria do Trabalho Escravo. “Vamos juntar as duas frentes para fazer um trabalho sistematizado”, conclui Luís Henrique.
Sem registro
Embora a polícia local não tenha registro de eventuais bauruenses levados para fora do País ou para outros Estados por aliciadores, que os exploram sexualmente ou os submetem ao trabalho escravo, alguns casos jamais registrados foram ventilados na cidade. Entre eles, o de pessoas levadas ao Exterior com expectativa de fazer pós-graduação, mas que tiveram o trabalho explorado.
Há também comentários de bauruenses que trabalharam de forma extenuante em garimpo, além de estrangeiros em situação ilegal no País, cuja jornada era exaustiva nas ruas do município. Há anos, porém, não são mais vistos. Também não existem notícias de adoção ilegal. A dúvida é se a Lei de Registros Públicos tem sido aplicada. Ela prevê checagens em caso de suspeita da paternidade.
Conforme o Jornal da Cidade divulgou, a Justiça identificou ao menos cinco estratégias de casais que tentavam burlar a fila de adoção na cidade. Entre os casos relatados, o de esposas que recebiam em casa a amante do marido, grávida dele.
Tanta bondade feminina suscitou desconfianças. Estranhamente, em todos os casos, as respectivas gestantes abriam mão do bebê logo após o parto. Numa nova demonstração de nobreza, as “titulares” demonstram interesse em registrar a criança. Após suscitarem estranhamento especificamente há dois anos, quando vários pedidos de exame de DNA foram solicitados, os casos sumiram do Fórum local.
Quaresma tem oração e caridade
A Campanha da Fraternidade é lançada no início da Quaresma, período de 40 dias iniciado na quarta-feira de Cinzas que é marcado pela penitência, conversão, caridade e assistência aos pobres, diz o bispo de Bauru, dom Caetano Ferrari. De acordo com ele, existem duas formas de o católico ajudar o próximo.
“Tem de ensinar a pescar mas, primeiramente, dando o pão para a pessoa ter força para pescar. O católico deve evangelizar, educar as pessoas”, explica. A expectativa dele é que o fiel, pela vivência da fé e a prática da caridade, também faça críticas construtivas. Até porque a miséria é capaz de levar pessoas ao desespero.
“Jesus diz: ‘buscai primeiro o reino de Deus e sua Justiça e tudo mais necessário para comer, para vestir, para viver, Deus dará em acréscimo’. O valor maior que deve estar à frente das coisas são os valores evangélicos. Deve ser a fé em Deus, buscar o reino de Deus, trabalhar por isso. Então não vai faltar nada. Não é pregar o comodismo”, afirma.
Dom Caetano também defende a liberdade do cristão em não sucumbir ao vício, à cobiça, à obsessão pelo dinheiro. “Isso é escravidão”, acrescenta, ao explicar o lema da Campanha da Fraternidade “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.
Serviço
A programação da Igreja Católica, assim como o horário das missas, podem ser conferidos no site www.bispadobauru.org.br – link Notícias.
Fala-povo
Você acha que campanhas como a da Fraternidade ajudam a conscientizar?
Fotos Douglas Reis |
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