Foi no VMB de 2004, premiação do videoclipe que fez história na MTV Brasil, que Caetano Veloso presenteou o canal com um dos episódios mais emblemáticos de sua história. Durante um show seu com o escocês David Byrne, uma microfonia ensurdecedora levou a MTV a chamar dois breaks comerciais fora do script, até que se identificasse o problema: um músico da banda do baiano havia esquecido um microfone aberto atrás do palco. “Ele ficou irritadíssimo. Deu um chilique, xingou todo mundo. Batendo palmas, ele se virou para uma das câmeras e disse, a altos brados: ‘Pessoal da Emetevê, vergonha na cara! Vamos começar de novo! Bota essa p... pra funcionar!”
O piti de Caetano batiza o livro que Zico Góes, ex-diretor de programação do canal, lança agora pela Panda Books. O tributo não pelo chilique, e sim pelo efeito que representa para a trajetória de 23 anos de uma TV apresentada como uma “não TV”, disposta a zombar de suas falhas, em vez de cortá-las na edição, de rir de si e de encerrar seus programas no auge. “Havia uma regra oculta: quando o programa amadurece, e você já o faz com os pés nas costas, é porque está na hora de mudar”, ensina Zico.
Em 160 páginas, o autor narra saborosas cenas de bastidores, modos e temperamentos de VJs, fala sobre as drogas de Thunderbird e João Gordo, as exigências de diva de Fernanda Lima, as birras de Daniella Cicarelli, os chiliques de Toni Garrido no Rockgol, a obsessão de Penélope Nova com o corpo e assume a manipulação de votações.
CARETA
Não que a audiência fosse assim toda tatuada como seus VJs. Longe disso. Na análise do diretor, seu público era muito mais conservador do que a equipe do canal imaginava. “Quando você faz as pesquisas, começa a se decepcionar: a minha audiência não é tão moderninha quanto eu acho.”
Efeito Internet
Analisar o nascimento da MTV na era pré-Internet e todas as tentativas do canal de não perder público para a nova plataforma também merece o olhar de quem trafegou nesse universo antes e depois da web. Quem hoje precisa de um canal de TV para encontrar as músicas que lhe interessa, se o Youtube oferece o que se quer, quando e como se quer? Zico lembra ainda a relação do intervalo comercial com a audiência e um modelo até então inexistente no Brasil. A MTV foi, afinal, o primeiro canal segmentado do País, e vinha em sinal aberto. Era preciso vender uma relação com a audiência e algumas marcas perceberam isso. Em contrapartida, o intervalo ficou tão casado ao conteúdo do canal, que quando alguém lá pagou para anunciar a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, houve telespectador que chiou. “No fundo, o que eu queria dizer é: a MTV foi única, foi uma comunidade, foi um encontro de pessoas e nunca mais vai acontecer”, completa. “É um livro muito pessoal, de memória seletiva, inclusive esqueci de falar de algumas coisas: não falei de 20 e Poucos Anos, uma das coisas mais importantes que a MTV já fez.”