Exigente e menos preocupada com o valor da mensalidade, a classe C chegou ao ensino superior, antes território quase exclusivo das classes A e B. Para realizar o sonho do diploma universitário, estudantes oriundos de família com renda entre R$ 1.734 e R$ 7.475 não se satisfazem mais com qualquer instituição de ensino, nem com cursos de carga horária ou grau de dificuldade menor.
A constatação é do diretor executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), Rodrigo Capelato. Ao participar da 10ª Jornada Regional de Marília, ele divulgou dados relativos às instituições privadas também da região de Bauru. De acordo com os números, por exemplo, houve aumento de 40% na matrícula em cursos pagos de engenharia, cuja mensalidade gira em torno dos R$ 1.200,00, entre 2011 e 2012.
Antes, porém, os estudantes da classe C procuravam cursos mais baratos. “Temos um grande divisor de águas no ensino superior”, diz o diretor executivo do Semesp ao referir-se às mudanças no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A partir de 2010, o governo federal reduziu a taxa de juros para 3,4%, aumentou o prazo para que o aluno começasse a pagar o financiamento (18 meses depois de formado), sendo que o prazo de quitação ficou estabelecido a um período três vezes e um ano superior ao tempo do curso, explica Capelato.
De acordo com ele, antes das alterações, apenas alunos oriundos das classes A e B tinham condições de pagar mensalidades mais altas ou de ser aprovado nos vestibulares seletivos das universidades públicas. Já as classes D e E, com renda de R$ 1.085,00 a R$ 1.734,00 e de R$ 0,00 a de R$ 1.085,00, respectivamente, eram contempladas pelo Programa Universidade para Todos (Prouni), que concede bolsas de estudo integrais e parciais (50%) em instituições privadas de Ensino Superior.
Qualidade
Mas se antes era excluída, agora a classe C escolhe cursos por vocação. “A medicina também passou a ser muito procurada. O mercado demanda muito mais esta mão de obra (de cursos mais exigentes) porque faltam mais profissionais nestas áreas estratégicas. O aluno do Fies entra mais vocacionado. Melhora também a competição entre as instituições”, explica o diretor do Semesp.
Atualmente, alunos das classes C, D e E procuram instituições que garantam mais qualidade de ensino e retorno profissional. Deixaram de se balizar tanto pelo preço. Entre abril de 2010 e abril de 2013, foram firmados na região de Bauru, que inclui 39 municípios, 7.203 contratos Fies. A exigência destes alunos é semelhante aos universitários beneficiados pelo Prouni.
Quando têm acesso ao curso apenas na terceira escolha, abrem mão, procuram o Fies e cursam a área de interesse na instituição de preferência. Pelo Prouni, o estudante aponta três opções de cursos em instituições específicas e concorre conforme sua pontuação no Enem.
Diploma igual, holerite diferente
Cursar o ensino superior nem sempre significa estar preparado. Muito menos apresentar competências que contemplem as expectativas do mercado de trabalho. A ponderação é do professor e economista Fernando Gallo, para quem os diplomas podem ser iguais, mas os holerites são diferentes entre os que têm mais e menos repertório.
Em sala de aula, ele atestou a baixa formação com que parte dos egressos do ensino público chega aos cursos superiores, problema também apontado pelo diretor executivo do Semesp, Rodrigo Capelato. “Tem muita instituição de ensino dando aula de reforço, tentando nivelar, mas é uma situação bastante crítica”, diz Capelato.
Para ele, a situação pode resultar em aumento da evasão. “Muitas faculdades também estão reduzindo o grau de exigência, caso contrário ficam sem aluno (após o processo seletivo). Nos últimos cinco anos, senti queda sensível na qualidade dos alunos. Eles ficam desesperados para dar conta”, comenta Gallo, com 20 anos de experiências como docente. O professor e economista também ressalta que o ensino superior tem recebido, atualmente, os alunos oriundos da progressão continuada. Quando deveriam, não foram reprovados, comenta.
“Eles têm dificuldade para entender o que leem e dificuldade de raciocínio. Exigem instituições com melhor qualidade, mas muitas vezes não estão preparados para segui-las”, lamenta. A tendência é que a médio prazo exista pressão para aumentar a qualidade do ensino médio, destaca Capelato.
Necessidade
“Mas isso não vai acontecer na noite para o dia, será a longo prazo. Ninguém aguenta mais essa coisa caótica que virou as condições de ensino”, acrescenta. A principal vítima são os alunos que, mesmo sem a formação adequada, conquistaram o sonho de cursar o ensino superior.
“Como função precípua do Estado, deve ser assegurada a inclusão em termos de acesso e permanência na escola nas faixas etárias adequadas. Também deve ser assegurado o desenvolvimento das competências correspondentes. É necessário que as políticas públicas em educação assegurem condições para que crianças, jovens e adultos tenham acesso à escola e, principal, nela aprendam”, afirma o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Cláudio Gomide.
De acordo com ele, ao avançarmos no que diz respeito ao acesso e permanência na educação básica, os principais indicadores indicam deficiências na formação. “Muitos cursos superiores já adotavam disciplinas de ‘fundamentos’, principalmente, por exemplo, em língua portuguesa e matemática, áreas em que as deficiências são mais comprometedoras para o posterior desenvolvimento dos estudos em nível superior”, acrescenta.
Para Gomide, evidentemente, trata-se de um paliativo. O grande desafio, agora, é melhorar a qualidade em todos os níveis e modalidades do ensino, inclusive no superior, fator imprescindível para a cidadania e o desenvolvimento sustentável em um mundo competitivo.
Bauru tem alta superior ao do Estado em matrículas
O crescimento percentual de 3% nas matrículas efetivadas no Ensino Superior privado em Bauru no ano de 2012 é bem superior à alta de 0,9% registrada pelo Estado de São Paulo, na mesma época. Além do estímulo do Fies, o desempenho local referente aos cursos presenciais tem relação direta com a oferta de cursos mais procurados, como é o caso da engenharia.
Já as matrículas do ensino à distância mais do que dobram em Bauru, entre 2009 e 2012. “Pega um público mais velho, predominantemente de 25 a 40 anos, que se formou no Ensino Médio e não conseguiu ingressar no Ensino Superior”, informa Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp. Entre os cursos à distância mais procurados estão pedagogia, administração e gestão pessoal e recursos humanos.
Mas segundo Capelato, quem está focado muito no mercado de trabalho também têm demonstrado muito interesse pela graduação tecnológica. Tanto que, na região de Bauru, o crescimento foi da ordem de 430% entre 2003 e 2012.
Neste caso, os cursos mais procurados são gestão de pessoal/recursos humanos; análise e desenvolvimento de sistemas, além de marketing e propaganda. Já nos cursos presenciais, ainda considerando a rede privada, os preferidos são administração, direito e pedagogia.
Sonho universitário
Ao cursar engenharia em uma instituição de ensino privada em Bauru Fernando Silva Roa, 39 anos, realiza sonho que nutriu a vida toda. Como no orçamento familiar estão inclusos gastos com a pós-graduação da esposa e o colégio particular do filho, se o Fies não existisse, talvez um dia lamentasse a falta de oportunidade em obter o diploma da área que sempre almejou.
A alternativa não lhe é exclusiva. Roa estuda em uma sala cuja faixa etária predominante entre alunos é de 34 a 35 anos. Muitos enfrentaram obstáculos para acompanhar o curso. “No primeiro semestre, a aula de cálculo foi para nivelar a turma. Alguns tinham dificuldade com matemática básica, matérias do ensino médio”, comenta.
Ele concluiu o antigo colegial em 91 em escola pública. Na época, a qualidade ainda era boa, afirma. “A gente estudava porque tinha vergonha de repetir. Os pais também ‘nos matavam’. Mas depois veio a progressão continuada, que acabou com a repetência”, comenta. Por discordar do método, optou em colocar o filho em escola particular.
A ideia é que ele também chegue ao ensino superior como o pai, que mudou seu olhar em relação ao mercado de trabalho e ao serviço que realiza com o curso. Roa atua na montagem de painéis elétricos, quadros de comando e instalação elétrica industrial.