É possível que um homem mate, estupre, esquarteje, torture, espanque, aniquile uma mulher, apenas pela exigência moral de ser homem. Isto efetivamente acontece todos os dias no Brasil, a cada cinco minutos. Que ouse a mulher inverter a força vetorial do soco e desafie a ordem patriarcal. Irá frequentar as manchetes da mídia impressa e eletrônica durante meses, como aquela mulher que esquartejou o marido e distribuiu os pedaços em malas, cansada do aniquilamento psíquico cotidiano por parte do cônjuge infiel. Psicopata, fria, inumana. Onde se viu profanar o corpo, a família, o amor e outros simbolismos consagrados. Foram estes os adjetivos com que brindaram a assassina. Fosse homem, os argumentos seriam outros: "matou por amor", "lavou a honra com sangue". Os antigos se lembram do Chico Picadinho, o autor do "crime da mala", tratado como folclórico pela imprensa e autoridades. Solto, cometeu o que o Código Penal chama de "reincidência específica".
Longo é o caminho percorrido pelas mulheres na busca da igualdade, do acesso à cidadania plena, da inserção na vida política e no mercado de trabalho. Ainda há muito chão pela frente, até que a mulher se liberte do seu castelo, onde deve se súdita fiel, falar menos e trabalhar mais pela família, mesmo que isso implique numa segunda e terceira jornadas. Culpa do Velho Testamento, que firmou uma primeira orientação entre os divulgadores da fé. A esterilidade, o "ventre seco" e a falta de filhos eram encarados como uma maldição. Deus concedeu a Sara, finalmente aos 90 anos, a graça de um filho: Isaac. As adúlteras eram condenadas à lapidação, ou morte por apedrejamento. Mesmo depois da intervenção de Jesus - "atire a primeira pedra quem estiver sem pecado".
Mudou para melhor. De forma mais acelerada a partir de nossas avós e mães. Em 1988 a Constituição aperfeiçoou os direitos ligados ao princípio da dignidade da pessoa humana que já era reclamado pela sociedade há muito. Estabeleceu tratamento igualitário entre homens e mulheres, vedando a discriminação entre sexos e criando idênticos direitos e deveres para ambos. Apesar dos desafios impostos à mulher - resquícios da sociedade patriarcal - o reconhecimento profissional melhorou embora com salários inferiores aos dos homens, como é fácil constatar no dia a dia. A Justiça do Trabalho está cheia de casos de assédio moral e sexual que têm como vítimas mulheres em seu ambiente profissional. Faltam creches e amparo à maternidade para que elas possam melhor desempenhar suas funções.
Há um esforço pela emancipação política das pessoas do chamado "O segundo sexo" (1949), na expressão irônica de Simone De Beauvoir. Temos uma presidente, Dilma Rousseff, que compôs o seu Ministério com dez mulheres (hoje são oito) inclusive com a ministra-chefe Gleisi Hoffman. No tempo de José Sarney (1985-1981) era apenas uma. Aqui em Bauru já batemos na trave, com uma vice-prefeita. Na Câmara Municipal, solitária, a médica Telma Gobbi. É muito pouco. Diferente da Ucrânia onde um grupo de mulheres resolveu fazer política com a utilização do próprio corpo, como forma de chamar a atenção à corrupção, o turismo sexual e a falta de liberdade. Os seios nus se tornaram símbolo político. Uma arma contra a falta de políticas públicas positivas, em vez de objeto do desejo. Ninguém está defendendo a mesma estratégia aqui em Bauru. Cruzes. Mas, lá como aqui, encomendam-se mulheres pela internet, como se mandassem buscar tênis pelo cartão de crédito. As ucranianas lutam com o que tem - a própria pele. Protestam e levam isso a sério. Exigem liberdade política e de expressão.
Como criticava uma fundadora do grupo, lá na Ucrânia (e aqui não é muito diferente) só há duas possibilidades de trabalho para a mulher: ser professora e ganhar 200 dólares por mês, ou ser puta e ganhar cem dólares por dia. Agora então, com a dissensão entre pró-russos e pró-europeus a guerra da pouca roupa pode recrudescer. As mulheres começam arriscar tudo para mudar uma realidade no mundo. A liberdade é azul. No esgarçado tecido da moral social, muitas se resignam no papel de Amélia; a grande maioria, porém, ousa ser Medeia. E os homens que se cuidem.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC)