Elas surgiram como medida para aliviar a demanda pelos atendimentos de urgência e emergência no município, mas estão sofrendo com a falta de médicos. No último final de semana, pelos menos duas das quatro Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) trabalharam com apenas um clínico de plantão.
Na principal delas, a UPA do Bela Vista, que realiza em média 300 atendimentos diários e, segundo o JC apurou, deveria possuir de três a cinco profissionais, um único médico trabalhou por 36 horas seguidas, consultando quase 200 pacientes apenas no domingo.
Já na unidade do Geisel, houve revezamento, ou seja, um dos médicos que atendia no local foi transferido para a UPA do Mary Dota, numa decisão nomeada pela própria pasta como “divisão de ônus”.
Ao admitir a falha, a direção do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde alega que o problema decorreu de imprevistos e elenca a falta de interesse do corpo clínico do departamento pelos plantões de final de semana como principal motivo para o desfalque.
“No caso das unidades do Geisel e do Mary Dota, o diretor das UPAs resolveu dividir o ônus para que nenhuma ficasse 12 horas só com um médico. Já na UPA do Ipiranga tínhamos dois médicos. A UPA do Bela Vista realmente ficou com um profissional só durante o final de semana, mas foi a única. Temos dificuldade em convencer o pessoal a trabalhar aos sábados e domingos”, explica Luiz Antônio Bertozo Sabbag, diretor do DUE.
Um médico consultado pelo JC, contudo, afirma que a unidade da Vila Ipiranga também teria trabalhado com apenas um profissional durante o domingo, assim como as UPAs da Bela Vista e do Geisel.
“Duas UPAs trabalharam com um médico só e as outras duas revezaram. A situação está complicada, falta estrutura. Estamos trabalhando dobrado e isso aumenta os riscos. Tem gente fazendo plantões mesmo doente”, afirma o profissional, que pediu para não ser identificado.
Escalas
Uma resolução publicada em dezembro de 2013, no Diário Oficial, autoriza o Departamento de Urgência e Emergência a convocar médicos e a distribuí-los para unidades descobertas aos finais de semana.
O departamento, contudo, ainda não lançou mão da prerrogativa, que prevê ainda que o trabalho seja feito em forma de plantão extra, ou seja, quando o profissional recebe R$ 1.380,00 por 12 horas de trabalho, ou de jornada regular.
Sabbag explica que continua optando por conversar com os colegas. “Discutiu-se que o procedimento das convocações parece um tanto quanto ditatorial e, como já estamos diante de um momento complicado, temos evitado”, detalha.
Questionado sobre o uso da convocação para evitar problemas como o do último final de semana, o diretor da DUE fecha questão.
“Foram imprevistos. Uma médica que estava escalada teve problemas de saúde e a outra, que seria deslocada do Samu para a UPA, também teve problemas envolvendo saúde na família. Não tínhamos como convocar ninguém de uma hora para a outra”.
80% não atendem no fim de semana
Dos 214 médicos da rede municipal de Saúde, 90 estão lotados no Departamento de Urgência e Emergência, que atende a demanda do Pronto-Socorro Central (PSC) e das quatros UPAs de Bauru.
“Desse total, 80% são profissionais que possuem horários fixos, ou seja, não querem nem podem trabalhar de final de semana. Por isso, a quantidade de médicos que se propõe a trabalhar é pouca e não conseguimos a renovação como gostaríamos”, pontua Sabbag.
Já na opinião do médico e vereador Raul Gonçalves de Paula (PV), a falta de médicos disponíveis na rede municipal para os plantões decorre da falta de estrutura do próprio sistema.
“Os exames para diagnóstico de um infarto ou de uma apendicite no setor de urgência chegam a demorar até 24 horas, quando os procedimentos para minimizar danos maiores à saúde do paciente eram para ser feitos em até seis horas. A responsabilidade é muito grande e a culpa por isso tudo pode recair sobre o médico”, enfatiza Raul.
Questionado, Sabbag informa que no PSC não há demora de diagnóstico, mas admite que o problema ocorre nas UPAs. “O laboratório entrega tudo em até 12 horas, mas há uma dificuldade na logística de distribuição. Estamos negociando um sistema para disponibilizar os resultados dos exames via Internet”.
Além da jornada
O médico lotado para atender a demanda da UPA da Bela Vista atuou por 36 horas seguidas no último final de semana.
A situação contraria orientação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, que estipula que a jornada de plantão médico não deve ultrapassar 24 horas.
Sabbag confirmou que casos assim têm ocorrido em Bauru, mas que a pasta tem trabalhado no sentido de evitar os plantões de 36 horas.
“Agora não estamos mais autorizando que fiquem 36 horas seguidas. Pedimos para que eles descansem no mínimo seis horas. Estamos tentando seguir a orientação, mas a dificuldade está na quantidade de médicos que se propõem a trabalhar”, conclui.