Não há administração estatal eficiente se não souber utilizar os mecanismos de mercado e não há mecanismo de mercado que possa funcionar sem as garantias de um Estado suficientemente forte para controlá-lo. Isso é válido tanto para os países desenvolvidos quanto para as sociedades emergentes que pretendem ser repúblicas e democracias.
No Brasil, pela falta de compreensão adequada desse processo, segmentos de nossa economia deixaram de utilizar todo o seu potencial de crescimento nos últimos três anos, alimentando um clima de pessimismo que só agora começa a se dissipar. É evidente que isso foi consequência em parte do péssimo funcionamento da economia mundial, mas também resultado do entendimento defeituoso dos mercados financeiros com relação aos objetivos da política econômica do governo.
Esse sentimento já começa a ceder diante da recuperação do nível da atividade ainda no final de 2013 que surpreendeu a maioria dos críticos da política do governo. A desconfiança que só agora começa a dissipar-se entre o governo e o setor privado foi, na realidade, produto de um honesto superativismo governamental derivado da crença de que poderia acelerar o tempo da correção de alguns de nossos graves problemas estruturais. Quando olhamos objetivamente para aquele ativismo vemos apenas resquícios de uma atitude comportamental que vai sendo superada pelo aprendizado.
Visivelmente diminuiu nesses últimos meses a desconfiança recíproca entre o governo e o setor privado empresarial, graças à iniciativa da presidente Dilma Rousseff de ampliar o diálogo e ouvir importantes lideranças que podem influir na aceleração dos investimentos especialmente na infraestrutura. Isso tem revelado uma nova postura do governo federal com o seguinte resultado: 1) declara definitivamente superada a desconfiança mútua (sempre negada explicitamente) entre governo e os setores privados mais dinâmicos e melhor apetrechados de técnica e recursos; 2) devolve aos programas de governo uma visão logística estratégica que incorpora os sistemas de rodovias com o ferroviário, os portos e a geração e distribuição de energia.
Apesar de que entre os programas e sua efetiva execução serão precisos pelo menos 12 meses, haverá um efeito antecipado sobre o ânimo da sociedade que começa a ver uma pequena retomada econômica em resposta às medidas fiscais, monetárias e cambiais tomadas até agora. E o ambiente de negócios só tende a melhorar, com a compreensão do governo de que o setor privado não quer e não precisa de benesses e subsídios, mas sim: 1) De condições isonômicas para competir; 2) De leilões bem projetados não apenas para atender as carências presentes, mas, principalmente para sustentar investimentos futuros que garantam a melhora permanente da qualidade dos serviços.
Quando a incerteza sobre o futuro é absoluta e quando o passado não fornece informação sobre o futuro, só uma ação decidida e forte do Estado pode por em marcha o setor privado para acelerar o desenvolvimento econômico. Essa forma de ação ? correta e crível ? é capaz de antecipar a esperança.
Os primeiros resultados já são visíveis: os leilões de infraestrutura mostraram que o diálogo está restabelecendo a confiança mútua. E com esta, os investimentos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC