Quioshi Goto |
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Embora seja uma das avenidas mais importantes de toda a cidade, a Duque de Caxias tem baixa capacidade viária, como mostram constantes picos de lentidão |
Obstáculos do tipo “tartaruga” dividem os sentidos de direção na avenida Duque de Caxias, em boa parte do trajeto. Nada mais apropriado, já que em horários de pico e nos pontos mais críticos, a segunda marcha é artigo de luxo para quem dificilmente ultrapassa os 10 km/h na via com velocidade máxima permitida em 50 km/h em boa parte de sua extensão.
Uma das mais importantes artérias de tráfego urbano em Bauru, a via em questão oferece uma série de “obstáculos” para os que dela precisam para se locomover de casa até o trabalho, faculdade, escola e outras necessidades em dias úteis. Saturação de tráfego, caminhões, pedestres fora da faixa, cruzamentos fechados, veículos danificados que, pela falta de área de escape, entopem ainda mais o fluxo, são alguns dos mais notados.
Problemas não faltam e o trânsito, aparentemente bom em um dia de semana qualquer, pode ficar caótico de um instante para outro. Basta chover um pouco mais ou acontecer uma colisão, mesmo que leve, para que as filas de veículos se formem. A mescla de estrutura ultrapassada, aumento desgovernado da frota e o comportamento muitas vezes ruim dos motoristas e pedestres aumenta a tarefa diária de quem, obrigatoriamente, cruza a avenida, fundamental na ligação do eixo oeste-centro-leste da cidade.
Solução?
Projetos não faltam para melhorar o trânsito na Duque. Segundo o próprio prefeito Rodrigo Agostinho, ao menos três estão previstos para desafogar a avenida. A construção da alça de ligação da Duque com a avenida Nações Unidas está em fase de desapropriação de imóveis e é uma das melhorias prometidas à população.
Saturada
Conforme a própria Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) informou ao JC, em 2012, a avenida Duque de Caxias está saturada. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) estabelece uma média diária de 600 veículos/hora – aferida nas oito horas de maior fluxo – para artérias do porte da Duque de Caxias (duas faixas de rolamento).
Na Duque, especialmente no trecho entre os radares próximos ao viaduto sobre a Nações, essa média é de 900 veículos/hora, ou seja, 300 a mais do que o máximo especificado para essa categoria de avenida. Diariamente, na mesma região, são contabilizados, em média, 26 mil veículos. Mil a mais do que a Nações Unidas, nas proximidades do viaduto com a própria Duque.
Projetos prometem ‘fazer avenida andar’
Embora seja uma das avenidas mais importantes para todo o sistema viário de Bauru, a avenida Duque de Caxias tem visível baixa capacidade viária, principalmente nos horários de pico – início da manhã e final de tarde. Somente as duas faixas em cada um dos sentidos não são suficientes, portanto, para evitar a lentidão, além disso, as baias de estacionamento construídas nos anos 90 e as muitas conversões à direita desaceleram o fluxo, segundo comenta o professor e especialista em tráfego Archimedes Raia Júnior.
“A Duque por si só traz uma série de problemas que acabam influenciando no comportamento do motorista. Isso fica muito claro quando a gente constata que a avenida tem radares conhecidos e, mesmo assim, é uma das campeãs em multas por excesso de velocidade. O motorista acaba sendo absorvido por esses problemas de tráfego e se perde na hora de controlar a velocidade”, analisa Archimedes.
De acordo com o especialista, os estacionamentos, ainda que fora da via, influenciam ainda mais na perda de capacidade, no momento em que o motorista ou para, reduz muito a velocidade ou tenta desviar para a faixa da esquerda... “São ações que acabam gerando atrito e redução do fluxo”.
Alguns falam até em proibir o tráfego de caminhões em horários de pico. Para o especialista, isso seria bom, sim, mas se feito com um estudo de logística urbana efetivo. “É preciso delimitar quais são as vias e horários que esses veículos podem circular, e quais são os veículos que devem entrar nesse “rodízio”. Não basta você proibir a circulação de caminhões como fazem em São Paulo. Eles não podem ser vistos como vilões, já que abastecem as lojas e o comércio em geral”, pondera.
Prefeito fala
Segundo o prefeito Rodrigo Agostinho, um dos grandes problemas da Duque é o estrangulamento do trânsito presente na conexão com a avenida Castelo Branco. “Ali, vamos fazer uma obra de mudança de perfil geométrico da praça da rotatória, a Chujiro Otake, que terá o seu formato mudado para dar maior fluidez ao trânsito”, argumenta o prefeito. A praça segue como grande funil catalizador de praticamente todo o fluxo entre Centro e bairros, principalmente regiões das vilas Falcão e Independência.
Já no outro extremo, sentido Jardim Marambá, Rodrigo aponta que a prefeitura fará a conexão da Duque com a avenida Água Comprida, por meio da Praça Antônio Anacleto Chaves.
Outra obra que não foi feita e está planejada desde o projeto original do viaduto 23 de Maio, construído em 1975 sobre a avenida Nações Unidas, prevê uma alça de acesso ligando as avenidas Duque de Caxias e Nações Unidas. “O início da obra só está dependendo de algumas desapropriações”, afirma Agostinho.
Um pouco de história: era totalmente residencial, mas Duque foi sendo incorporada pela expansão comercial de Bauru
A avenida Duque de Caxias teve início a partir da rua Monsenhor Claro, até a altura da rua Antônio Alves, segundo conta o historiador e pesquisador bauruense Irineu Azevedo Bastos. Hoje, ela termina na Praça Antônio Anacleto Chaves, no Jardim Marambá, com aproximadamente três quilômetros e meio de extensão. Com o crescimento da cidade, a via acabou se emendando à rua Doutor Lisboa Júnior (na altura do Hospital de Base) que, por sua vez, uniu-se à rua José Aiello.
Dali para frente havia duas barreiras: as linhas das estradas de ferro e o Rio Bauru. O percurso foi vencido com a construção do Viaduto Antônio Eufrásio de Toledo, até atingir o outro lado: a Vila Falcão. “A façanha da construção do Viaduto citado, teve como méritos, além do prefeito Osvaldo Sbeghen, o apoio decisivo dos deputados Alcides Franciscato e Abrahim Dabus, que conseguiram recursos para esse fim”, completa Bastos.
Outros dois viadutos compõem a Duque de Caxias: um sobre a rodovia Marechal Rondon e um sobre a avenida Nações Unidas (Viaduto 23 de Maio).
‘Duque de Caxias, um futuro setor comercial?’
O título acima foi feito pelo jornalista, memorialista e relações públicas Luciano Dias Pires, em dezembro de 1974, na primeira edição do jornal Bauru Ilustrado. Na matéria, ele confirmava o crescimento do centro comercial bauruense, especificamente na rua Batista de Carvalho, com seus pontos disputadíssimos, além de ressaltar o desenvolvimento da lavoura bauruense, da implantação do Distrito Industrial e da expansão do campo educacional, fatores que refletiam diretamente no comércio da Bauru da década de 1970, onde velhos prédios começavam a dar lugar a modernos edifícios, dando novas dimensões à paisagem urbanística da “Cidade Sem Limites” e impressionando os visitantes, como ele mesmo escreveu.
Na mesma reportagem, Pires “profetizou” o avanço comercial de Bauru em pontos diferentes da cidade, um pouco mais distantes da Batista de Carvalho, ou mesmo da rua 1º de Agosto e da avenida Rodrigues Alves, que já diversificavam as suas casas comerciais.
Foi nesse contexto que a avenida Duque de Caxias, hoje quase sem traços residenciais, foi apontada como um possível setor comercial de Bauru. “Para um futuro próximo”, escreveu.
Para os mais jovens, ler tal texto é viajar no tempo, além de um convite à imaginação.
Algumas das descrições de outrora, são impraticáveis hoje. Um dos motivos citados pelo jornalista para o futuro comercial da Duque e seu entorno foi o estacionamento facilitado que havia em toda a extensão da avenida e também nas quadras próximas à ela. No decorrer dos anos, e com a chegada dos bancos, alguns chegaram a chamar a avenida de “A Paulista de Bauru”.
‘Eu vi’
Entrevistado sobre o tema, Pires lembra que viu a Duque de Caxias receber a expansão do comércio de Bauru e muito mais. “Eu brinquei na via quando ela ainda era uma rua de terra. Joguei futebol com os amigos por ali, vi as casas serem construídas, o asfalto chegar, o mato sair, os prédios alcançarem os céus... Mas nem todo mundo acreditava nessa expansão, neste progresso”, recorda.
Entre as lembranças de “seo” Luciano está a compra de um terreno, feita por uma professora sua, na rua Rio Branco, no cruzamento com a via em questão. “Era um mato só naquele tempo, e os amigos dela acharam uma loucura. Imagine acreditar que um dia aquele espaço seria valorizado pelo mercado imobiliário”, diz, com bom humor.
Os desfiles cívicos que atraíam multidões para a avenida nas décadas de 1940, 1950... também fazem parte das lembranças do memorialista. “E muitas outras coisas, como a construção dos viadutos, as figuras ilustres da cidade que moraram na Duque, como o empresário Damião Garcia. Havia uma grande caixa d’água do Departamento de Água e esgoto (DAE), uma coisa inusitada se pensarmos hoje, ficava entre as ruas Antônio Alves e Gustavo Maciel, para o abastecimento da região”, recorda.
