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A onça de Bauru

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 2 min

O escritor Monteiro Lobato imortalizou na literatura infantil o livro "As caçadas de Pedrinho". Para os tempos atuais, a obra do mais notável integrante da Academia Brasileira de Letras pode soar estranha. Afinal, é o relato da captura de uma onça que invadiu o Sítio do Pica Pau. A rigor, Lobato já fazia a antevisão da invasão do homem ao espaço dos animais. O felino que habita as matas é parente do gato, animalzinho doméstico que nem todos adoram, por serem instigantes e de "personalidade" própria, algo que para os humanos soa como arrogância, pelo jeito macio do caminhar e pelo apego ao ócio. Os felinos dormem em média 14 horas por dia.

Pilhéria à parte, o aparecimento de uma suçuarana no Vitória Régia é mais motivo de indignação do que o modo festivo brasileiro de varrer para debaixo do tapete as mazelas. Como um animal desse porte surge do nada perto de uma avenida movimentada? É um sinal evidente de que o rigor de nossas legislações ambientais não são tão eficazes na preservação de reservas e matas.

A onça fez uma manifestação mais digna do que os black block depredadores sem eira nem beira. O felino mobilizou em curto espaço de tempo autoridades municipais, bombeiros, policiais ambientais, imprensa e a população para demonstrar que estar em cima daquela árvore era o brado em defesa de um meio ambiente mais equilibrado. Poucos ousaram chegar perto, a onça estava ali num protesto digno da rebeldia de sua adolescência (a espécie tem poucos anos). A suçuarana veio pedir apenas uma mata fechada rodeada de outros seres vivos para manter a cadeia alimentar, sem nenhum ser racional por perto. Ambos gostam de conviver bem longe um do outro: é a lei da natureza que insistimos não respeitar, porque não está escrito em nenhm código e nem passou pelas mãos de estimados legisladores.

A cada dia se tem notícia de que animais aparecem nos mais inusitados locais. Tudo indica também, se levar em conta a teoria dos conspiradores, que o surgimento de onças pode ser um movimento orquestrado pró-natureza. No ano passado, apareceu uma suçuarana em cima de uma árvore à beira do rio Pardo, em frente à estação de tratamento de água da Sabesp, em Santa Cruz do Rio Pardo. Após a chegada de bombeiros e imprensa, o felino conseguiu escapulir e seguir mata adentro.

A onça é o nosso inconsciente coletivo da inconsistência de leis detalhistas demais, sem muita serventia no enfrentamento da cobiça humana pelo vil metal.


O autor, Aurélio Alonso, é editor regional do Jornal da Cidade

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