Até poucos anos atrás, alguns aspectos da vida não mudavam: o emprego, o casamento e aquela cidade eram para toda vida. Isso transmitia às pessoas um senso de continuidade econômica, pessoal e geográfica. Hoje, as instituições da vida social se degradaram. No mercado global, quase não há empregos duradouros. O casamento, cada vez com maior frequência, sofre rápida corrosão. O próprio conceito de ser parte de um lugar está desaparecendo: viajamos e mudamos, muitas vezes, por exigência do trabalho.
Família, amigos, vizinhos, professores, eram pessoas a quem estávamos ligados por uma reciprocidade moral. Eram pessoas que estavam lá nos bons e maus momentos e podiam até dizer coisas que não queríamos ouvir. Hoje, com o aumento das exigências profissionais, as pessoas têm menos tempo para essas relações; paga-se e delega-se, muito do que é importante na vida, a certos profissionais para gerirem nossos assuntos, relações, conflitos e emoções. Isso é uma grande perda de autoridade sobre nossas próprias vidas e significa que, muitas vezes, nosso destino está nas mãos de outros e não nas nossas.
Isso é apenas parte da história. Esse sentimento de que não temos mais controle sobre as nossas vidas é agravado por conta das grandes forças que nos rodeiam e que estão se tornando cada vez mais voláteis, complexas e imprevisíveis: o mercado financeiro, as mudanças tecnológicas, o cenário internacional, o meio-ambiente, a internacionalização do terror, para citar algumas. Essas forças praticamente não são influenciadas pelas nossas ações. Nossas esperanças são investidas no governo do qual exigimos cada vez mais e de quem esperamos cada vez menos, ou nos mercados que, por sua natureza, são caprichosos e indiferentes àqueles que beneficiam ou prejudicam. Muito do que nos acontece está fora do nosso controle: são escolhas políticas e econômicas tomadas muito longe, por pessoas que nunca encontraremos. A consciência da falta de controle sobre a própria vida explica a ansiedade sistêmica que se tornou parte do caráter do século 21.
Virtudes antes admiradas como a modéstia, humildade, discrição e comedimento são agora objetos poeirentos em exibição num museu de curiosidades culturais. Palavras como dever, obrigação, juízo, sabedoria têm uma carga negativa ou nenhum sentido. Oscar Wilde definiu o cínico como alguém que conhece o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada, lembrando que valor é inerente a coisas como lealdade, altruísmo, amor que são coisas inegociáveis, que são coisas conquistadas e não compradas, que são parte do que somos e não do que temos. Uma cultura construída por meio de uma rápida sucessão de desejos, artificialmente induzidos e temporariamente satisfeitos, ou na qual tudo pode ser comprado, é uma cultura em que se desvalorizou o valor e se institucionalizou o cinismo e o salve-se que puder.
A vida deixa de ter peso e é cada vez menos ligada a algo de sólido e estável para além do eu. A vida se transforma em um estilo de vida, o compromisso em experiência, a carreira em um contrato e a própria vida deixa de ter o caráter de uma narrativa para se transformar em episódios sem um fio condutor. Por tudo isso, não somos agentes, somos pacientes: essa é a gênese do desespero.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru)