Em qualquer análise que se faz da economia são levados em consideração os fatores que influenciam seu desempenho: as famílias, as empresas privadas, o governo e o setor externo. Nas famílias encontram-se os estoques de fatores de produção. São ofertados ao mercado a mão de obra, os recursos, a capacidade de gerar riquezas, enfim, os elementos necessários para que a produção ocorra. As empresas organizam os fatores de produção e oferecem ao mercado produtos e serviços. O governo é grande agente à medida que ele subtrai recursos das famílias e empresas e repassa ao mercado em outras frentes, denominadas de gastos em custeio e investimentos. O setor externo completa a visão do funcionamento econômico interagindo com o mercado interno.
A grande fonte de financiamento das contas externas de um país vem da balança comercial. É nesta balança que são registradas as exportações e importações de produtos. No total do balanço de pagamentos do país, além da balança comercial, há a balança de serviços e de capitais. Evidentemente que os serviços, como fretes, royalties, turistas, etc, o volume de recursos envolvido é pequeno se comparado à balança comercial, sem contar que os juros da dívida e remessa de dividendos também estão contabilizados nesta conta, e o no caso brasileiro há mais saídas do que entradas de recursos. Assim, se o país não vai bem na balança comercial, as contas externas dependerão da balança de capitais. Se o volume de recursos da balança de capitais tiver como fonte entradas de divisas para o setor produtivo, há geração de riquezas, são os denominados investimentos diretos. Contudo, quando as entradas se concentram nos recursos especulativos, que ingressam em busca de juros ou retornos rápidos, o país fica fragilizado. Não que estes recursos não sejam bem-vindos, mas não pode ser somente por esta frente.
Fica evidente que os esforços devem ser concentrados na balança comercial. Neste particular há inúmeros fatores que influenciam o desempenho do país. Do lado das importações, a dependência de insumos de elevada tecnologia é a questão mais impactante. Atuar em mercados globais em que há dependência de poucos players do mercado internacional não é salutar. Isso é realidade no Brasil. Não implementamos uma política de substituição de importações e, devido ao custo Brasil, observa-se uma verdadeira desindustrialização. Assim, importar é imperativo. Entenda-se neste contexto intensa saída de recursos. Do lado das exportações o Brasil tem vantagens comparativas, mas tem muitas fragilidades. Ao mesmo tempo em que somos fortes no setor primário, sendo referência em agronegócios, com elevada produtividade, somos também frágeis porque nossa pauta de exportação é fraca. Como colocado, dependemos de produtos de elevada tecnologia que vêm do exterior. Já os demais países podem trocar os produtos que compram do Brasil pela concentração em commodities alimentares ou metálicas.
O desempenho brasileiro em termos de balança comercial tem sido pífio. Só para ilustrar, acumulamos déficit comercial de US$ 6 bilhões no primeiro trimestre deste ano. Se esta seria a principal fonte de entrada de divisas, está evidenciado que teremos dificuldades em fechar as contas externas.
Tudo isso gera mais desconfiança no mercado e, juntando que as fragilidades das contas públicas, a pressão sobre a inflação e baixo crescimento econômico, não há confiança suficiente para mudar o comportamento cético dos operadores do mercado. O modelo econômico, mais precisamente o modelo do setor externo brasileiro, precisa ser revisto, logo. É questão de sobrevivência.
O autor é economista e articulista do JC