Noé, carpinteiro de fim de semana que fazia forro de casas habitacionais, um belo dia recebeu pelo seu radinho de pilha AM um chamado divino. Nele, um misto de aviso e pedido, Deus avisava Noé que ele e sua família haviam sido escolhidos (e nem houve sorteio, hem!) para manterem a hereditariedade da vida na terra. Caberia a ele construir um barco (arca) em que coubessem ele, sua família e exemplares dos diversos animais escolhidos por Deus a sobreviverem ao dilúvio, o qual seria "o divisor de águas" da existência humana neste orbe.
Noé, meio que surpreso, perquiriu a Deus:
- Mestre, algumas dúvidas me assolam a mente: eu não tenho Arrais-amador. Se a Florestal me pegar a multa será alta; mais alta ainda por transportar animais sem a devida licença do Ibama. Ele podem até me tomar a arca. Onde arrumarei madeira certificada para construí-la? Já viu o preço da madeira de lei? Se ao menos as Casas Bahia vendessem madeira...
E com pinus acho que não ficará boa a arca. Tá certo que pinus é leve, mas, diga-me, o senhor pretende levar algum pica-pau... Outra coisa: o sindicato dos engenheiros irá me crucificar (perdão senhor!) se o projeto não contar com a assinatura de um engenheiro naval. Precisarei de licença da prefeitura para ocupar espaço público para a construção da arca, afinal, eu moro em meio terreno. Não vejo como conseguir esta licença. E também não tenho dinheiro.
O senhor já viu o valor do salário mínimo... é mínimo! Tá bom! Já sei o que vai me responder com esta sua voz de trovão ? Tenha fé!!!
Darei início aos trabalhos. Começarei pela retirada das licenças necessárias. O Senhor poderia dar uma mãozinha e fazer "um milagrinho" para que liberem rapidamente a papelada! Senão não terminarei a tempo!
Espero que o senhor não use água da Sabesp, senão a conta terá um valor alto dos infernos! (desculpe de novo, senhor).
Muuuuuuiito tempo depois... o radinho volta a tocar.
- Noé, acabaste?
Sim, mestre. Estou devendo favores a um monte de gente, mas terminei. E agora?
- Noé, a partir dessa noite começarão a chegar os animais que escolhi. Eles virão aos pares.
- O Senhor foi esperto, hem! À noite é melhor para que não sejam vistos. O perigo é serem atropelados nas rodovias.
- Noé, fique tranqüilo! Esta tudo sobre controle!
- Sei, hum! O prefeito fala a mesma coisa, resmungou Noé. Deus, pai paciente, não levou em consideração a rabugice de Noé.
Após todos os representantes dos animais ocuparem seus lugares na arca, Noé fechou as portas à espera das águas prometidas.
A água subiu. (não foi o preço não, viu!), subiu, subiu, subiu. E continuou a subir, subir, subir, subir, subir.
Por quarenta dias Deus inundou a terra.
Enquanto aguardava as águas baixarem, Noé procurou criar o esboço do que viria a ser o novo mundo. Depois de muuuuuuuuiiiitos dias, as águas baixaram e Noé pôde sair com toda a sua família e vislumbrar o novo mundo que se afigurava aos seus olhos. Os animais terrestres caminharam; os pássaros voaram e a nova vida começou. Noé agradeceu a Deus pela nova oportunidade e foi logo procurando um morro onde pudesse construir uma nova casa. Alguns condicionamentos são difíceis de mudar.
Reginaldo Furtado - Professor membro da Academia Bauruense de Letras (ABL)