Polícia

Prisão de acusado de matar a mãe gera debate sobre o crack

Cinthia Milanez, Marcus Libório e Thiago Vendrami
| Tempo de leitura: 5 min

Considerado o principal suspeito de ter assassinado a própria mãe, Reinaldo de Oliveira Montovani, 31 anos, foi preso uma área próxima ao Núcleo Residencial Gasparini, onde Clarice de Oliveira Montovani, 57 anos, foi encontrada morta dentro do banheiro de casa anteontem. A cozinheira foi assassinada com um fio de torradeira e, apesar dos indícios, o filho nega ser autor do crime.

Reinaldo foi preso na noite de anteontem. O delegado Mário Henrique Ramos explica que ele se sentiu ameaçado por usuários de drogas da região, que tiveram acesso à informação do crime e o repreenderam. “Ele sentiu medo quando passaram a acusá-lo de matar a própria mãe, ligou para a irmã e pediu para ela o buscar em um local conhecido por ser frequentado por usuários e traficantes, perto de onde ocorreu o crime”, explica.

No encontro, junto com a irmã, foram policiais militares da 4ª Companhia, responsável pela região. Ele se entregou à polícia por volta das 21h e, na madrugada, o juiz Cláudio Augusto Saad Abujamra acatou um pedido de prisão temporária por 30 dias.

Reinaldo foi transferido para a Cadeia Pública de Avaí (39 quilômetros de Bauru) após ser ouvido pela Polícia Civil.

Segundo o delegado plantonista, o suspeito chegou a trocar o micro-ondas e o celular da mãe por crack na sexta-feira passada. Além dos produtos, ele teria subtraído mais de R$ 160,00 em dinheiro de Clarice.

Porém, as investigações apontam que Reinaldo costumava devolver parte do dinheiro que roubava da mãe depois que o efeito dos entorpecentes passava.

De acordo com o delegado Cledson Luiz Nascimento, da equipe de investigação de homicídios da Central de Polícia Judiciária (CPJ), o suspeito afirmou à polícia que esteve na casa da mãe no horário que os vizinhos ouviram ele chamar, ou seja, na madrugada do crime.

Por outro lado, Reinaldo disse que esperou Clarice dormir para roubar dinheiro e o carro da vítima, mas que não matou a mãe. Ele reafirmou a mesma história ao JC durante a madrugada.

“Mesmo negando o crime, ele continua como principal suspeito, tanto que teve a prisão temporária decretada enquanto damos continuidade às investigações”, conclui Cledson Nascimento.

O caso

Conforme o JC divulgou na edição de ontem, Clarice Montovani foi encontrada morta no banheiro da própria casa, localizada na quadra 1 da rua Dos Metalúrgicos, no Núcleo Residencial Gasparini. Segundo a Polícia Civil, ela teria sido asfixiada por um fio de torradeira e o principal suspeito seria o filho, que tem passagem por porte de entorpecentes, furto e roubo.

Na residência, não havia sinais de arrombamento. Porém, o carro dela não estava na garagem. No mesmo dia, o veículo foi encontrado entre as ruas Felício Atala e Francisco Maiolo, no Jardim Flórida, local utilizado por usuários de crack. No fim da noite, Reinaldo Montovani foi preso.


‘Já vi dependente da droga até comendo lixo’

O crack é visto como uma “bomba” pela titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo. “Crack é droga barata e de fácil disseminação. Os usuários misturam de tudo com a droga, até gasolina. Vira uma bomba e acaba com os neurônios”, relata.

Tendolo observa que o problema pode ser resolvido pelos familiares antes que se transforme em algo mais grave.  “O problema é a família não acreditar que é algo grave. Hoje, o viciado pede dinheiro. Amanhã, começa a furtar e, quando chega em certo estágio, ele faz de tudo para comprar o crack: até mesmo matar”, alerta.

Uma das situações que mais chamou a atenção dela foi durante a retirada de uma jovem viciada das ruas. “Ela estava comendo lixo na rua”, lamenta.

No ano passado, 16 pessoas foram tiradas das ruas pela Sebes. Hoje, a pasta disponibiliza diversos programas de prevenção e cuidados em relação às drogas, incluindo campanhas que mobilizam autoridades e profissionais especializados.


Especialista afirma que crack tira o discernimento

Para a psiquiatra e especialista em dependência química Florence Kerr-Corrêa, o crack faz com que o usuário perca o discernimento das consequências dos próprios atos. Ela ressalta que não é necessário o uso de drogas ou álcool para ações brutais ocorrerem nas famílias, porém, os entorpecentes aumentam os níveis de violência.

“Há dias que você pensa em matar alguém, mas você só pensa. Existe uma distância quilométrica entre pensar e realmente colocar em prática, porque você tem noção das consequências desse tipo de ação. O usuário de crack, por outro lado, não tem esse discernimento. Quando está sob o efeito do entorpecente, ele simplesmente concretiza o pensamento”, explica.

O major Alan Terra, coordenador operacional do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), compartilha da opinião da especialista. “O crack está relacionado com a violência, sim. É uma realidade hoje. Os crimes mais violentos e de intolerância, a maioria deles, tem o elemento droga envolvido. E o crack aparece como o maior incidente”, destaca.   

Terra destaca que o usuário perde a noção da realidade. “Ele pensa ter força acima do normal. Perde a essência racional e, sem limites, comete atrocidades”, diz.


Vizinhança

Um dia depois do crime que deixou vizinhos, amigos e familiares de Clarice inconformados, a vizinhança ainda estava melancólica. Rosineide Mara Silva Queiróz estava varrendo a porta de casa ontem à tarde e lamentando a morte da vizinha. Ela conta que o filho de Clarice era um pouco bipolar, ou seja, às vezes a cumprimentava e outras não.

Já Karina Gomes, que vive na mesma rua, explica que não tinha muito contato com a família de Clarice, porque mudou recentemente para o local. Porém, os boatos corriam pela vizinhança. Segundo Karina, o suspeito de ter matado a mãe já foi visto usando entorpecentes em um terreno baldio, junto com outros rapazes. “Na entrada do Gasparini, tem um terreno que todos os usuários utilizam, mas só ouvi falar, nunca o vi no local”, conclui.

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