Durante a reunião realizada na Instituição Toledo de Ensino (ITE), que envolveu a PM, a DRE e diretores de todas as escolas do município, a reportagem entrevistou duas educadoras que estão há mais de 20 anos atuando no ensino em Bauru. Elas revelaram o drama que as unidades da zona Oeste e Noroeste da cidade têm vivido nos últimos meses após a aproximação de pessoas ligadas ao tráfico de drogas.
Por questões de segurança, a identidade das educadoras e o nome das escolas serão preservados pela reportagem.
“É um esforço gigantesco para não deixar a droga entrar na escola. Muitos alunos que se rendem ao tráfico alegam que o fazem porque não têm, por exemplo, um chocolate para comer dentro de casa ou um tênis bacana para vestir. Eles ganham semanalmente dos chamados ‘disciplinas’ do tráfico para oferecer a droga lá dentro. Em troca, recebem o dinheiro e uma promessa de que serão protegidos dentro e fora da escola”.
Ela ainda relata até ameaças de morte. “Eu mesma já fui ameaçada ao impedir a entrada de droga. Sem falar que há uma inversão gigantesca de valores. O aluno aliciado acaba sendo bem visto pelos demais. Antes, eram apenas um ou dois, hoje, eles são 20 ou 30. Estamos chegando a um ponto que, sozinhos, não conseguiremos mais. Não consigo colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila sabendo que amanhã enfrentarei tudo de novo. Tenho saído de casa com a insegurança e com o peso de poder não voltar mais”, desabafa a diretora de uma escola estadual na zona Noroeste de Bauru.
Revista em alunos
“Fico praticamente o tempo todo resolvendo conflitos de alunos que se envolvem com drogas, brigam na sala de aula ou deixam o entorpecente escondido na frente da escola. Até agora, tive domínio da situação e não deixei que a droga invadisse nosso ambiente, mas é uma luta diária. Às 7h da manhã, o grupo se reúne para fumar maconha aqui. Chegamos até a revistar alguns alunos para impedir a entrada da droga. Quando descobrimos, chamamos os familiares ou responsáveis. As coisas estão difíceis. Infelizmente, prevejo problemas ainda maiores no futuro se não agirmos agora”, relata outra diretora de uma escola estadual na região Oeste de Bauru.
‘Tenho medo dentro da escola’, revela aluno
João, nome fictício – o estudante não será identificado por questões de segurança -, tem 15 anos. Este é o primeiro ano dele em uma escola estadual na região central de Bauru. Em conversa com a reportagem, ele opinou sobre o reforço do policiamento na porta de sua escola e contou as situações que têm presenciado de dentro da própria sala de aula.
“Dá até mais segurança ver os policiais na saída, mas o problema é que lá dentro tudo continua a mesma coisa. Tenho mais medo de ficar dentro do que fora da escola. Tem aluno que mexe com droga nos corredores e eles ficam fumando e olhando o pessoal passar. Minha sala fica de frente para o lugar onde esse grupo fica. Os funcionários passam e não fazem nada. Acho que eles têm medo. Até porque fica gente de fora da escola que pula os portões”, conta o estudante.