Quando você estiver recebendo este jornal, por certo estaremos em plena Semana Santa. O que representa isso para o cristão? Não pretendo fazer uma peça de oratória sobre o assunto, obviamente porque isso caberia a um especialista. Sinto-me impelida a dirigir-me ao leitor tão-somente como um leigo colaborador. "Segundo sua ciência, competência e habilidade, os leigos têm o direito e por vezes até o dever de expressar sua opinião sobre as coisas que se relacionam com o bem da Igreja." (Lumen Gentium 37, § a)
Não seria este o momento para fazermos uma séria reflexão sobre nossa vida? Haveria ocasião mais oportuna que esta, embora o verdadeiro cristão tenha por obrigação aninhar Cristo em seu coração em todos os instantes de sua vida? Será que neste viver agitado e apressado em que transformamos nossos dias não estaremos imperceptivelmente deslocando Cristo do centro de nossas aspirações e polarizando nossas preocupações sobre nós mesmos? Abramos nossos olhos para a realidade e alijemos o egocentrismo, expurguemos esse desejo de uma vida fácil de prazeres momentâneos e alegrias passageiras.
Estaremos vivendo como cristãos autênticos ou somos apenas seguidores de fachada de um Cristo que, muito mais que figura histórica, é um marco universal? Você, eu, todos nós temos uma missão significativa: continuadores da obra do filho de Deus. Não está escrito na Epístola aos Colossenses, 1, 24 "Eu completo aquilo que falta na obra de Cristo"? Grande responsabilidade a nossa.
Reflitamos nestes dias consagrados a Cristo e à nossa Igreja. Além de nosso dever de propagação dos ideais de nossa Igreja, temos a incumbência de pautar cada segundo de nossa existência nas pegadas daquele que veio ao mundo como um Redentor. A função de cada um de nós é gerar a vida de Deus nas almas, realizar o plano de Deus, a união do mundo com Deus. Sei que hoje tudo isso está difícil. A vida solta, cheia de liberdades suspeitas, o comodismo, a ingratidão, o suborno, a entrega a um irracionalismo selvático, a ânsia de glória e poder, tudo dificulta o cumprimento de princípios salutares e de acordo com a Igreja que tentamos seguir. É preciso ser forte para não sucumbir às tentações. Às vezes, é preciso ser até rude para fazer frente às provocações exteriores. Mas, ao desistirmos da luta, ao fazermos de nossas horas uma oportunidade para a dissipação e frugalidade, nada restará no prato da balança de nossos atos senão frustração e vacuidade. Você quer ser apenas um indivíduo oco, sem passado nem presente e com um futuro duvidoso onde imperem a negligência, o desregramento e o mau exemplo? Acaso não tem filhos, irmãos, pai e mãe, amigos a quem possa legar um modelo de vida e deixar uma semente de virtude?
Faça o que sabe melhor fazer para propagar Cristo. Se sabe escrever, escreva, se sabe concretizar, concretiza, se sabe catequizar, catequize. Tudo é válido. Mas, faça, aja. "A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito de cada um." (Ep. 1 Coríntios, 12, 7). Ninguém tem o monopólio do Espírito Santo. Adélia Prado entende bem do assunto: "Uma formiga me detém o passo,/ aonde vais, celerado, que não me ajudas?/ Mas não é dela a voz,/ é dele interceptando-me,/ o deus carente. / Se não lhe disser Vos amo,/ sua dor nos congela." Coisa mais linda! Amar a Deus sobre todas as coisas, porque Deus, a quem devemos servir é a Vitória e a Eternidade.
Viva intensamente a semana! Boa Páscoa!
Maria da Glória De Rosa