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A insatisfaçonite aguda tem cura?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 2 min

Nestes últimos dias, senti uma dor estranha. Começava no pâncreas, locomovia-se lentamente e batia bem pertinho do coração. Sou daqueles pessimistas e logo imaginei que era infarto. Não era. O diagnóstico da minha mãe foi mais brando: gases. Para sorte dos que estavam perto de mim, também não era.

Resolvi enfrentar a minha teimosia de evitar hospitais e fui ao médico. Lá, após alguns exames e muitas perguntas, ele cravou o que eu tinha. "Sem sombras de dúvida, você possui insatisfaçonite aguda", revelou. "Mas que m**** é essa, doutor?", disse eu, assustado.

A insatisfaçonite aguda é uma doença que afeta grande parte da população mundial. Apesar de levar "aguda" no nome, ela tem diversos graus. A maior parte das pessoas tem a enfermidade no nível raso. Outras, contudo, são mais preocupantes. "Inclusive, pode levar à morte, meu filho", explicou o médico.

Uma amiga costuma me dizer que esse meu jeito é coisa de pisciano. Mal sabe ela que não tem nada relacionado aos astros. Sabe aquele lance de "a grama do vizinho ser mais verde"? Pois é. É o principal sintoma da doença. Principal, mas não único. Os acometidos por essa terrível enfermidade nunca estão tranquilos. São irrequietos e nunca deitam a cabeça no travesseiro em paz. Almejam a conquista sempre à frente. "Isso é bom em certo momento. Faz você não se acomodar. Mas, em exagero, você não vive o presente. Vive somente desejando aquilo que queria ter e não tem", complementou o "dotô".

O cachorro do vizinho é mais legal, o filho do colega de trabalho é mais estudioso, o carro que saiu este ano é mais adequado, o relacionamento rompido há alguns meses seria eterno e perfeito novamente agora, entre outros. Insatisfaçonite. Aguda. E bem aguda. De tão aguda chega a ser crônica. "E de tão crônica, ao longo do tempo, pode afetar os sentidos", disse o homem de jaleco. "Como assim, doutor?"

É que a insatisfaçonite vai tirando, aos poucos, a visão. Não conseguimos enxergar o que já temos. Só temos olhos para o que não está ao nosso alcance. Seja porque nunca tivemos ou pior: porque tivemos e perdemos.

"Mas tem cura?", questionei, assustado e com os olhos tão arregalados que me fizeram deixar de ser oriental por alguns segundos. "Tem sim, meu filho. Tome duas doses de ?dar mais valor ao que já tem? três vezes ao dia que isso vai passando aos poucos", finalizou o médico.

Fui embora do consultório mais tranquilo. Passei na farmácia e comprei o "dar mais valor ao que já tem". Mas, logo passei a me questionar: será que esse é o remédio certo? Acho que meu vizinho tem um remédio melhor para isso. Melhor dar uma checada...

O autor é paciente com insatisfaçonite aguda em recuperação, repórter do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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