Quatro meses antes da tragédia na curva Tamburello, que completou duas décadas na última quinta-feira (1º de maio), Ayrton Senna se divertia em pescaria na região de Assis (180km de Bauru). Descontração e humildade, atestam privilegiados que presenciaram a ilustre visita, marcaram uma das últimas viagens do tricampeão pelo País.
Dias depois, o piloto embarcaria para a Europa onde iniciaria, na semana seguinte, os treinos com a então nova equipe, a Williams/Renault, rumo à fatídica temporada 1994 da Fórmula-1.
Nada de detalhes de bastidores dos padocks. A conversa era, na ocasião, literalmente, “de pescador”, lembra Ivo Guiotti, proprietário do pesqueiro no município de Cândido Mota. No entanto, o espírito competitivo estava presente. “Não queria ‘perder’ nem na pescaria”, lembra o piscicultor.
História de pescador
Foi assim que as primeiras pessoas que ouviram sobre a visita encararam o fato. Jornalistas da região (alguns avisados pelo próprio dono do criadouro), chegaram a debochar da informação e não deram bola para o tremendo furo que desembarcara do jatinho, no aeroporto de Assis.
Jornalista atuante na época, o professor universitário Cláudio Messias, ao receber a informação de que Senna estava em Cândido Mota, correu para checar a veracidade do boato, que chegou a virar piada na região. Segundo ele, em relato publicado no site “Assiscity”, nem o então prefeito candidomotense, Cidinho de Lima, acreditara de primeira. “O Mansell veio junto?”, ironizava o mandatário para, instantes depois, admitir, de queixo caído: “É verdade, o homem está aqui”.
Confidencial
Era uma tranquila e rotineira manhã de trabalho na piscicultura Bonanza. De repente, toca o telefone no escritório da administração da propriedade. Do outro lado da linha, Milton da Silva, pai de Ayrton, sondando sobre alternativas para criação de peixes pretendida por Senna na fazenda da família em Tatuí. O pai do tricampeão, lembra a família proprietária, pedia o máximo de descrição, e agendou a visita.
Senna desembarcou no aeroporto estadual de Assis no dia 18 de janeiro, uma quinta-feira. Após a notícia sair no rádio, fãs correram para o aeroporto. Quem correu para o terminal na última hora lembra de Ayrton abraçado por crianças.
Na beira dos lagos, quem era criança era Senna, recorda Ivo. O espírito de competição na pesca só foi quebrado na hora do almoço. Acostumado à melhor gastronomia do mundo, Ayrton deu show de humildade. “Ele queria mesmo era arroz com feijão e ovo frito”, detalhou Mirian, esposa de Ivo. Detalhe, foi o próprio Senna que pilotou o fogão à lenha no preparo da mistura.
Prescrição e intuição
Tilápias e pacus fisgados, alevinos na bagagem, junto ao conhecimento sobre a criação nos laboratórios da piscicultura, Senna decolou do aeroporto de Assis para São Paulo, de onde rumaria, no dia seguinte, para Angra dos Reis, onde passara o final de semana.
Dias depois, o tricampeão chegava à Europa para os primeiros testes na Williams. Mesmo com o potente motor Renault, Senna taxava o modelo FW16 de “cadeira elétrica”. Rebelde, desconfortável, instável, o carro não passava segurança. A desconfiança sobre o monoposto, somada aos fatídicos episódios num dos finais de semana mais trágicos da categoria (grave acidente de Barrichello e morte do austríaco Roland Ratzemberger nos treinos) fizeram Senna repensar a carreira.
Na véspera da batida que vitimou o tricampeão, o professor Sid Watkins (morto em 2002), médico que tentou salvar o ídolo ainda na Tamburello, lembrava ter aconselhado um angustiado Ayrton a largar o mundo perigoso e agitado das corridas. “Você não precisa mais provar nada para ninguém. Vamos pescar, você gosta disso”, recomendava, em relato do próprio no documentário “Senna”.
Watkins e Senna eram parceiros de molinete e costumavam fisgar salmões na Europa. As tilápias e pacus, na provável última pescaria de Ayrton, não chegaram a ser apresentadas ao amigo neurocirurgião.
O médico acertara na prescrição, talvez, sem saber que um dos últimos dias de total tranquilidade do ídolo ocorreram, justamente, com a combinação isca, anzol, amigos e histórias (verídicas!).